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   > RECADO AO PRESIDENTE



Airo Zamoner
      CRôNICAS

RECADO AO PRESIDENTE

Lamartine foi a Brasília. Estava disposto a falar com o presidente. Tinha um bom motivo. Estava junto dele no fatídico dia em que sofrera aquele acidente na fábrica. Chorou com ele as dores da amputação. Ensangüentou-se ao ampará-lo do desmaio, até que o socorro chegasse. Ah, era um bom motivo, sim! Certamente relembraria com prazer daqueles tempos e o receberia de braços abertos.
Tinha muita coisa que precisava dizer a ele. Juntou suas parcas economias e partiu sacolejando pelas estradas mal vestidas. A modorra conduziu-o às plagas da mescla inconsciente entre a realidade e os devaneios. Via-se subindo a rampa do palácio, acompanhado de todos aqueles que há pouco o carregaram em triunfo. Recebendo as homenagens lá do pedestal com largo sorriso. Gesto diplomático, repleto de mesuras, meio sem tarimba do cerimonial rigoroso, à espera do cumprimento entusiasmado ao final da subida íngreme.
A rampa era longa, muito longa. O corpo arqueava, pesado. Forçava a cabeça para cima e o presidente sorria. Corpo de lado, mão direita estendida a sua espera e à espera da multidão que o acompanhava.
A escarpa se acentuava. Escorregou algumas vezes. Teve que apoiar as mãos no chão. Angustiado, imaginou que ele não poderia esperá-lo tanto. Nunca soube que essa subida era tão íngreme. Mas chegaria logo. Tinha muito a dizer. Precisava lembrá-lo de algumas coisas que haviam conversado há tanto tempo naquele dia escuro de sangue e também das lutas incansáveis, desgastantes, gratificantes de há tão pouco tempo.
Engatinhava. Era melhor subir engatinhando. Os joelhos também se apoiavam na ladeira. Olhou para trás e todos o imitavam. Não havia outro jeito. Tênue neblina se formava lá no topo. A imagem do mandatário se esfumaçava. Lamartine e seu povo não desistiam da caminhada. Apenas descansavam um pouco.
Os joelhos estavam feridos. As mãos calejadas sofriam no atrito pesado com a aspereza do caminho. Por que ele não descia um pouco lá do alto? Por que não saía desta nuvem que se adensava? Descer até eles seria tão fácil! Subir é que são elas! Tinham que lembrá-lo de muita coisa que já parecia se perder na memória. Certamente as cerimônias do cargo o impedem de descer até aqui.
É por isto que Lamartine terá que se esforçar mais. Ferir-se mais. Sangrar mais, como ele sangrou no dia do acidente. Só assim chegará bem perto. Apertarão as mãos. Trocarão abraços fraternos. Entrarão todos abraçados no palácio e o dia será inteiro de conversas longas e ele agradecerá as lembranças. Matarão saudades e lembrarão de velhos sonhos. Lamartine e seu povo precisam muito falar dos velhos sonhos. Está tudo anotado. Está no bolso.
O andar acentua o aclive. Já não conseguem progredir na caminhada. Avançam um passo, escorregam dois. Olham para o alto. Não desanimam. Mas a nuvem se adensa, encobrindo tudo. Ele deve estar por trás da nuvem. Mas certamente está esperando Lamartine e seu povo que não mais consegue avançar. Deslizam velozmente para trás e tudo desaparece ao redor. Sentem os joelhos dilacerados. A cabeça querendo explodir.
A escuridão toma conta de Lamartine. Consola-se. Não conseguiriam mesmo falar com o presidente. Que ousadia a deles! Mas precisavam muito dar o recado. Era tão importante!
– Presidente! Lembra de um tal de Lamartine e seu povo?
– Lamartine? Que Lamartine?... Povo?
– Dizem que foi o companheiro que estava ao seu lado no acidente da fábrica... Estava vindo pra cá junto com um tal de Povo. Encontraram este bilhete no bolso dele. É um recado endereçado ao senhor. Seu estado é grave. Certamente não sobreviverá! O Povo, este talvez escape!
O recado era confuso. Mal escrito. Próprio de um semi-analfabeto. Um presidente não teria tempo para reler. Amassou-o. Jogou na lixeira. Saiu balbuciando:
– Não lembro! Como vou lembrar daquilo? Ou disso? Tenho tantas outras preocupações agora! Lamartine! Lamartine! Como vou lembrar desse camarada? Lamartine! Povo! Ora essa!


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