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   > O Centauro que existe dentro de cada um de nós



Vicência Jaguaribe
      CRôNICAS

O Centauro que existe dentro de cada um de nós

Agora que não há mais cascos
evidentemente não é possível,
mas a vontade que tenho é de
dar patadas no chão [...]
(Moacyr Scliar)
 
 
            Só agora – digo, há uns três meses – li O centauro no jardim, obra de Moacyr Scliar, lançada em 1980, pela Nova Fronteira. Lia-a em sua 10ª edição, trinta anos depois de seu lançamento. É um romance na linha da narrativa fantástica, que conta a história de uma criança centauro, nascida em uma família judia de origem russa. A história cobre o período que vai de seu nascimento em uma pequena fazenda no interior do Rio Grande do Sul, em 1935, até 1973, quando o protagonista, adulto, casado e pai, mora em São Paulo.
            O livro, pela minha ótica de leitura, põe em evidência duas grandes questões que entravam a trajetória humana pela terra: a falta de integridade psíquica e o grito das origens. Guedali, o centauro que protagoniza a história, vê-se dividido entre suas duas naturezas, a humana e a animal, e deseja, acima de tudo, ser um homem integral, isto é, ver-se livre de sua metade equina. Mas, quando consegue atingir esse objetivo por meio de uma intervenção cirúrgica, lamenta haver perdido sua outra metade, aquela que fazia dele um ser primitivo, instintivo e livre. Na verdade, porém, ele continua mantendo dentro de si esse outro lado, mesmo que se apresente com a aparência humana: “Como um cavalo, na ponta dos cascos, pronto a galopar pelo pampa. Como um centauro no jardim, pronto a pular o muro, em busca de liberdade”. Com esses dois enunciados, Scliar encerra a obra.
            Enquanto lia o romance, não podia deixar de pensar que nós, seres humanos, somos, na realidade, um contingente de centauros, seres divididos, cujas duas metades não se cansam de se digladiar, uma tentando suplantar a outra.
Junito Brandão, no seu Dicionário Mítico-etimológico, vê o centauro como um símbolo da concupiscência, a qual rebaixa o homem ao nível animalesco, se não for adequadamente controlada pelo espírito. Leva, ainda, o simbolismo para o campo da Psicanálise e esclarece:
 
           Projeção nítida da dupla natureza humana, uma bestial outra divina, os Centauros traduzem os incontroláveis instintos selvagens, transformando-se em imagens do inconsciente, que se apodera da pessoa, entregando-a aos impulsos e eliminando toda e qualquer luta interior.
 
            Pois bem, todos nós somos centauros, isto é, seres divididos entre realidades e sentimentos opostos. Somos metade matéria, metade espírito; metade amor, metade ódio; metade instinto, metade consciência; metade razão, metade emoção; metade homem, metade mulher. E vamos pela vida nessa briga com nós mesmos, ora deixando uma metade prevalecer sobre a outra, ora – o que acontece raramente – conseguindo um equilíbrio entre as duas metades. E nunca (nesse ponto discordo das palavras de Junito Brandão) cessa a luta interior dessas metades inconciliáveis. Quando uma se manifesta, a outra não é descartada, mas fica represada, podendo emergir ao menor toque do cajado de um Moisés ocasional.
            Quantas vezes não nos desconhecemos em nossas atitudes selvagens, em nossas palavras de ódio, em nosso desequilíbrio emocional, em nossos instintos, que gritam do inconsciente e saem porta a fora? Parecemos a nós mesmos e aos outros que somos outras pessoas, que fingimos toda a vida ser alguém diferente, e que só naquele momento estamos nos revelando, botando as manguinhas de fora, como diz o vulgo. Quando, na realidade, estamos somente expondo nossa outra metade, que, quieta, esperava o momento propício para manifestar-se.
            Às vezes, a manifestação da outra metade do centauro dá-se em nível individual; às vezes, dá-se em nível coletivo. Que aconteceu, por exemplo, com a Alemanha de Hitler? Onde estava escondida a metade animal do povo alemão, tão bem disfarçada por sua metade humana, representada por artistas excepcionais e por filósofos incomparáveis. Estava lá dentro de cada um. Cada filósofo, cada músico, cada escritor alemão havia empurrado para o inconsciente a sua metade animal, enquanto se mostrava em sociedade em sua metade humana. Não, não se tratava de máscara, de fingimento. Era uma questão de divisão da personalidade, inerente ao ser humano. De repente, animada por uma conjunção excepcional de fatores, eis que a natureza equina do centauro manifesta-se incontrolável e instala-se. E entrona-se até que outra conjunção de acontecimentos a force a recolher-se. Mas não para sempre. Ela está lá, de sentinela, de atalaia, à espera de outro momento adequado.
            O que salva a humanidade e cada ser humano em particular é que a metade humana que compõe a parte de cima do centauro é muito poderosa. Não é à toa que tem em sua composição a cabeça, que domina o restante do corpo e faz a outra metade recolher-se – quis dizer à sua insignificância, mas seria um erro – recolher-se ao seu labirinto sombrio. E exatamente porque se recolhe à sombra labiríntica é que ela pode ser controlada pela outra metade, que recebe a energia da luz solar. Somos, assim, um centauro que tem uma metade na sombra e outra na claridade.
            Não resta dúvida de que algumas pessoas, por razões que desconhecemos em parte, conseguem controlar melhor e por mais tempo a metade equina do centauro, enquanto outras não conseguem fazê-lo. As que conseguem administrar bem essa divisão são consideradas boas, magnânimas, amáveis, cordatas, pacientes, chegando às vezes ao patamar do heroísmo e até da santidade. As que não conseguem são consideradas marginais; são os sádicos, os assassinos, os estupradores, os ladrões. Mas não nos enganemos: quer sejamos santos, quer sejamos assassinos em série, somos todos centauros. Precisamos estar em constante vigilância.
 
            



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