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   > NOITE DE HALLOWEEN



Carlos Alberto Omena
      CONTOS

NOITE DE HALLOWEEN

Aquela noite, era uma noite especial, era noite de festa, afinal, iria ser comemorado o dia de halloween.
E naquela pequena cidade do interior não era diferente. Todos se preparavam durante a semana confeccionando fantasias de bruxas,demônios,fantasmas,vampiros e outros não menos renomados seres das trevas. Tudo tinha que ficar perfeito, a praça aonde ia se desenrolar a festança começava a receber os ornamentos lúgubres e fantasmagóricos. Tinha caveiras, monstros alados, caixões, sepulturas, fitas pretas e vermelhas, velas, atoches e tudo mais que o tema permitia.
A euforia era geral. Adultos, crianças, jovens, padre, prefeito, ricos e pobres, se juntavam na praça neste dia e comemoravam a festa de halloween com muita música, bebidas e farta mesa de comidas e guloseimas.
E a noite prometia muito, pois o céu estava completamente limpo, a os primeiros raios de uma enorme lua cheia começava a clarear a ornamentada praça dando ainda mais realismo ao tema da festa, criando um tom ainda mais sombrio e assustador.
Nessa pequena cidade, porém, tinha alguns costumes e tradições estranhas como não permitir a entrada na cidade de novos moradores, ninguém podia deixar a cidade, as casas eram obrigadas a colocar no alpendre, estranhos amuletos feitos em corda e fitas, ninguém, exceto da noite de halloween saia às ruas após o por do sol, todos os domingos, ao invés do costumeiro encontro na igreja para a missa semanal, todos os habitantes se encontravam no cemitério da cidade onde entoavam cânticos em uma linguagem nativa de difícil entendimento.
Os últimos moradores a chegar àquela cidadezinha forami um jovem casal e seu filho um ano antes. Ele médico e ela enfermeira.
Só lhes foi permitida a permanência naquela cidade por gratidão das pessoas. Quando passava pelos limites da cidade encontrou uma jovem desacordada e com sérios ferimentos, a beira da estrada. Como médico,parou seu veículo,examinou-a e colocou-a no carro dirigindo-se a cidade.Lá chegando tratou logo de encaminhá-la a um pequeno posto de saúde onde salvou-lha a vida. Em gratidão o povo da cidade pediu-lhes que ali ficasse com sua família e assumisse aquele posto médico, o que de pronto foi aceito. E por ali eles ficaram sem entender ou aceitar muito sobre os mitos e superstições daquele povo.
Quando o médico tentava incutir na cabeça de alguém sobre suas descabidas superstições eles somente lhe retrucavam:
“-Dr. o senhor é muito novo nesta cidade e não sabe nada dela, portanto não mexa com o que não conhece. É melhor para todos nós, pode acreditar”.
Mas, enfim era noite de halloween e todos queriam aproveitar a única noite de divertimento que tinham. Todos iriam estar lá. Bem... quase todos.
A única família que não era permitida a participar era a família de um tal “Zé Profeta”. Nesse dia, essa família era trancada em sua casa,suas portas e janelas eram lacradas por fora pelos moradores e na frente da casa eram colocadas ,próximo ao portão da rua, pratos de comida,jarros com bebidas , doces e velas coloridas acesas.
Nada daquilo fazia sentido ao médico e sua esposa. Porque aquela injustiça com aquela família?Porque não deixá-los participar também da festança? Porque aquele ritual todo na porta daquela pobre família?
Perturbado com aquelas insanas atitudes, procurou o prefeito naquela tarde, antes da bendita festa começar, atrás de algumas respostas, pois ninguém na cidade falava a respeito. Todos temiam algo que não entendia e sempre que interpelava alguém com suas perguntas , desconversavam e o deixava falando sozinho.
O prefeito, vendo a angustia daquele homem atrás de respostas e sabendo também que ele tornara-se membro daquela sociedade, achou que era hora de contar-lhe tudo sobre os mistérios que rondavam a cidade:
“–Caro amigo doutor”. Há muitos e muitos anos atrás esta cidade era um lugarejo chamado de “Vale da morte”. Aqui era um grande acampamento cigano e ninguém podia sequer atravessar a cidade que era interceptada por eles e eram roubados e brutalmente assassinados. Tendo seus corpos enterrados em volta da cidade.
-Os anos se passaram, as mortes e o poder desse grupo de mercenários aumentavam até que um grupo de homens liderados pelo meu avô, se uniu e armados, entraram na cidade mataram a todos e incendiaram suas cabanas, dominando e se apropriando da cidade.
-Foi assim que nasceu nossa cidade.
-Sim, mas o que a família desse tal “Zé profeta” tem a ver com isso? Porque ele é tão discriminado?
- Quando meu avô invadiu a cidade dos ciganos, e começou o extermínio, um deles, o líder, antes de cair morto, coberto de sangue e tendo em suas mãos a cabeça cortada de seu filho gritava insano, entoando uma misteriosa ladainha, lançando uma grande maldição sobre todos nós. A maldição dizia que a partir de sua morte aquela cidade iria passar a ser conhecida como o “ vale dos espíritos “ e que eles iriam rondar e aterrorizá-la ate que finalmente pudessem retomá-la de novo.
-“Zé profeta” e sua família, não nasceram aqui, mas são os herdeiros diretos daqueles malditos ciganos, a segunda geração deles. Meu avô após consultar benzedeiras e rezadores da época descobriu que o único meio de controlar os espíritos seria mantendo aquela família ali,como uma espécie de guardião do espíritos. Enquanto eles estiverem lá em sua casa, os espíritos também estarão presos e não poderão sair para dominar a cidade. - Por isso fazemos esta festa na noite de hoje. É para manter os espíritos dominados. Acredita-se que se o “Zé profeta” sair de casa nesta data, os espíritos se libertarão e atacarão a cidade, matando a todos.
- Pura besteira!! Exclama o jovem médico.
- Isso é pura loucura, se aquela família sair e participar da festa nada acontecerá isso eu garanto.
-Essa história toda foi contada para justificar o massacre dos ciganos nada mais.
- Doutor, não mexa com o que você não conhece. Já vimos coisas nesta cidade que o senhor jamais acreditaria se lhe contasse. Portanto deixe tudo como está,finaliza o prefeito.
- De jeito nenhum. Não vou viver dentro de uma paranóia descabida dessa. Isso é loucura.Vocês precisam se livrar disso. A verdadeira maldição esta na cabeça dos moradores da cidade, isso sim.
O médico sai , revoltado com as besteiras que ouvira ,vai ate sua casa conta a sua esposa que também concorda com sua opinião.
Já passava pouco das sete horas quando a festa finalmente começa e em poucos minutos a praça já estava totalmente tomada.
O casal ainda revoltado com aquela situação e com a maneira que estavam tratando o “Zé profeta” resolveu dar um basta naquilo tudo, contrariando o apelo feito pelo prefeito.
Então, pediu a sua mulher que fosse à casa do enclausurado e o convidasse juntamente com sua família a irem à festa, enquanto ele se dirigia à cidade para convencer a população a aceitar a pobre família. E assim foi feito.
Chegando à cidade o doutor após tentar em vão persuadir o prefeito a aceita-los na festa, subiu no palanque armado para o discurso de abertura da festa e se pos a falar.
Como um bom orador e tendo o dom absoluto das palavras fez ver àquele povo que o que estavam fazendo com aquela família era errado. Que toda aquela historia de espíritos vingadores não passavam de pura besteira e que nada aconteceria se o “Zé” e sua família participassem da festa.
Sua certeza foi tão grande e suas palavras tão convincentes que o povo logo cedeu ao misticismo dando lugar à razão e a sanidade, permitindo então, após tantos anos, a presença da excluída família.
Foi um alvoroço geral quando finalmente chega à festa o “Zé profeta” e sua família. E, embora o povo ainda meio desconfiado e receoso com o que podia acontecer , os aceitaram e os convidaram a participar dos festejos.
Tudo transcorria normalmente, todos dançavam,cantavam e comiam à vontade. Enfim,a maldição,os espíritos vingadores já eram coisas do passado.Tudo realmente não passava de delírios e superstição dos mais velhos que tentavam amedrontar a população.Nada a mais do que isso. Pura besteira, como dizia o doutor.
“Zé profeta” e sua família, que nunca estiveram ali, pareciam os mais felizes, se divertiam como ninguém.
Já beirando às onze e meia da noite, algo estranho começa a acontecer. Aquela lua grande e brilhante que clareava toda a cidade, começava a dar lugar a nuvens escuras e um vento meio gelado substituía o calor intenso que fazia naquela noite. A multidão que se aglomerava na praça começa então a se assustar com a repentina mudança de clima, causando até um certo alvoroço.
Tendo o céu totalmente recoberto inexplicavelmente por nuvens negras e por fortes ventos, a cidade é invadida por grande quantidade de abelhas africanas atacando a todos. No corre-corre alucinante e frenético atrás de abrigo e proteção, uns pisoteavam os outros enquanto os demais agonizavam mortalmente com as picadas dos ferozes insetos.
Antes porém do médico e o prefeito ,completamente deformados pelas picadas e já sobre os efeitos de seu veneno, caírem fulminados, ainda puderam ver no alto do morro que cercava a cidade, como que contemplando a destruição da cidade, um homem com trajes ciganos, com o corpo coberto de sangue e carregando em uma das mãos, uma cabeça.
Estava cumprida a maldição...

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