Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (641)  
  Contos (940)  
  Crônicas (724)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (207)  
  Pensamentos (651)  
  Poesias (2525)  
  Resenhas (129)  

 
 
SÓCRATES: o filósofo...
Kairon Pereira de...
R$ 26,80
(A Vista)



45 dias e noites
Nadia Rockenback
R$ 30,00
(A Vista)






   > De predador a protetor



Vicência Jaguaribe
      CRôNICAS

De predador a protetor

            Recebi de um amigo um clipe em que um leopardo surpreende e mata um babuíno. Era um predador em ação, que atendia aos apelos dos instintos e da espécie. O babuíno era a caça que naquele momento atendia as necessidades do caçador. Era o mais fraco que se deixava aprisionar pelo mais forte. Era a lei da selva. Era a lei da vida – vence o mais forte: Ao vencedor, as batatas, nas palavras do mestre.

           Morta a presa, o predador transporta-a a um lugar seguro, onde possa saboreá-la sem dividi-la. Mas eis que, chegando ao local do banquete, o leopardo vê, desprendendo-se do espesso pelo do animal morto, onde até aquele momento estivera protegido e invisível, um filhote de babuíno. Naturalmente assustado ou, pelo menos, surpreso, o leopardo abandona a caça morta e volta-se para o pequeno animal. Mas, surpreendentemente, não o ameaça, não o ataca. Aproxima-se dele e tenta conquistá-lo. Age como uma mãe. Leva-o a um lugar seguro e fica de vigília. Mas o animalzinho é esquivo e não quer papo com o predador. Em determinado momento, tenta fugir e fica em perigo, quase escorregando de um galho alto. O leopardo segura-se em um galho mais baixo e luta para resgatar o pequeno babuíno, puxando-o pelo rabo. Finalmente consegue pôr o bichinho em lugar seguro e deita-se a seu lado. Na noite fria, o babuíno deixa-se aquecer pelo calor daquele predador de coração materno. E os dois – predador e presa – dormem juntinhos, como se fossem mãe e filho.

           Parece história de carochinha, mas não é. Também não é a primeira vez que se ouve história de animais que protegem bebês de outra espécie. Lembro-me, neste momento, de pelo menos três: a loba que acolheu, protegeu e criou Rômulo e Remo, os lendários irmãos gêmeos que teriam fundado a Cidade Eterna, Roma. O casal de macacos ou uma fêmea, não sei bem, que salvou da morte certa um pequeno lorde inglês, e o criou como se fosse um de sua espécie – Tarzan, personagem de ficção criado por Edgar Rice Burroughs. E, finalmente, Mowgli, o menino indiano, criação de Rudyard Kipling, que, perdido na floresta, foi encontrado e criado por uma família de lobos. Fica claro, acho, que as lendas modernas de crianças criadas e protegidas por animais foram inspiradas na lenda romana de Rômulo e Remo.

           Mas a história que inicia este texto não é lenda. Quem quiser pode vê-la em um clipe. Bem, pelo menos acho que não é montagem. E essa historinha ilustra muito bem o instinto materno, que pode ser despertado não só nos seres humanos, mas também nos animais. E mais: que esse instinto não está necessariamente relacionado com a genética. Quero dizer: podemos amar como filho uma criança que não foi gerada por nós, que não tem nosso sangue. O amor nada tem a ver com a genética, ou pelo menos não obrigatoriamente.

          Quando vi o clipe que mostra o encontro do leopardo com o pequeno babuíno, lembrei-me de que escrevera, às vésperas do dia das mães, um texto intitulado Uma homenagem às especialíssimas mães dos filhos dos outros, onde teço louvores às mulheres que adotam e amam crianças que não foram geradas em seu útero e que, portanto, não têm seu sangue. Centralizo a homenagem na senhora Gercila Rodrigues Vieira, que dedicou sua vida a essa missão.

          Para mim, não há ação mais humana, mais engrandecedora nem mais merecedora de louvores do que a de adotar uma criança. Mas adotar e amá-la como se filho fosse. E não é toda mulher que consegue essa façanha. Em algumas fica sempre o ranço, o desgosto por não ter gerado um filho de seu próprio sangue. Mas, graças a Deus, temos muitas Gercilas neste mundo recheado do imprevisível, que quebram as barreiras dos preconceitos e amam, educam e protegem crianças que, sem essa oportunidade, estariam perdidas. Louvem-se essas mães dos filhos dos outros.

          Mas, enquanto existem mulheres magnânimas como essas, existem psicopatas, ou simplesmente pessoas más, como a Procuradora de Justiça, Vera Lúcia Sant’Anna Gomes, de 57 anos, que, sob o pretexto de que querer adotá-la, levou para casa uma menina de apenas dois anos e descarregou sobre ela sua sanha e seu desequilíbrio mental. A criança, seriamente agredida, seria, segundo boatos dos vizinhos, sacrificada em um ritual de magia negra.

           É, assim como nem todo leopardo transpõe os limites do predador e acolhe o filhote da caça que acabara de matar, nem todo ser humano fica dentro dos limites da humanidade. Alguns transpõem esses lindes e entram no perigoso território – não digo da animalidade, porque estaria sendo incoerente com o que acabei de mostrar aos leitores – mas da loucura ou da maldade. Mas não. Fiquemos com a maldade e esqueçamos a loucura. A maldade pura e simples. O mal pelo mal. E, nesse território instalados, são capazes de agir contra quem deles se aproxima. Passam a ser predadores, à espreita de uma caça desprevenida. Não por necessidade, mas por maldade. Maldade pura e simples. É, porque, se vocês ainda não acreditam que o mal existe – nele e por ele mesmo – estão perdendo tempo. Passa da hora de acreditar. 



CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui