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   > O SUICIDA



Carlos Alberto Omena
      CONTOS

O SUICIDA

Deprimido, humilhado e já com a desesperança latente tendo tomado conta do seu ser, aquele homem, certo de que nada mais podia ser feito e sem vislumbrar a famosa luz no fim do túnel, dentro do seu quarto, absorto em seus pensamentos malévolos resolve corajosamente por um fim em tudo, ele decide morrer.
Mas não poderia partir assim repentinamente sem ao menos deixar algo, algumas linhas ao menos para justificar seu ato e para que todos soubessem que não era um covarde em tomar essa atitude, mas sim um homem a margem do desespero tentando solucionar seus problemas de uma vez por todas libertando assim seus entes queridos do fardo pesado que se tornara.
Totalmente decidido e sem possibilidade de retorno em sua decisão o homem prepara tudo o que precisa para atingir seu intento, mas antes resolve despedir-se de sua esposa e dos filhos.
Vai então o pobre homem até onde estavam seus cinco filhos e os abraça como nunca o fizera antes e titubeia quando a caçula de seis anos, como que pressentindo a despedida, espontaneamente lhe diz:
“ Te amo papai ! “
As lágrimas escorrem de seus olhos mas manteve-se firme, não poderia voltar atrás em sua decisão, não podia mais recuar, estava decidido e pronto.Era o melhor para todos.
Então parte em direção ao cômodo onde se encontrava sua esposa e repete o ritual, abraçando-a e beijando-a com uma volúpia intrigante e novamente se abala e se emociona com a declaração de amor proferida por ela.
Mas o que tinha que ser feito teria que ser feito e pronto.As cartas de despedida já estavam escritas e postas sobre o criado mudo ao lado de sua cama. Tudo preparado e pronto para seu desfecho afinal.Dentro de alguns minutos tudo estaria acabado. Seus problemas já não incomodariam mais, enfim estaria livre para o seu tão merecido descanso eterno.
Sentou-se na beirada da cama, pegou o frasco do poderoso veneno, colocou-o num copo com água e preparou-se para beber.
Quando o copo chegava próximo a sua boca, algo tenebroso passou pela sua cabeça, interrompendo abruptamente seu ato. As cartas de despedida.E se elas não estivessem bem claras.Se quando as pessoas lerem, irão entender?.Pensou ele. Então como que se pesasse em sua consciência, o homem pega as cartas, coloca seus óculos e começa a revisá-las uma a uma.
A primeira carta que o homem pega foi a endereçada aos amigos, retira do envelope e começa a ler:
“ A todos vocês que me conheceram durante essa minha vida medíocre que vivi quero dizer-lhes que infelizmente nunca os considerei como amigos, pois vocês jamais fizeram nada por mim, por conta de seus afazeres e preocupações egoístas, jamais prestaram atenção nos meus problemas. Parto dessa vida levando essa mágoa comigo”.
Como um relâmpago que cruza os céus, o homem começa a pensar nesses amigos e lembrou-se do companheiro Zé Carlos, que chegou ate a dividir a comida de casa para ajudá-lo quando estava desempregado, lembrou-se do João que cedeu um cômodo de sua casa quando ele por conta de pagamentos atrasados de aluguel, fora despejado; do amigo Ricardo que conseguira para ele, um emprego e depois uma promoção na empresa que trabalhava; sem contar com o Livio que sempre vinha com uma palavra de conforto nas horas mais difíceis; e em tantos outros. Então descobriu que os amigos que passara por sua vida, ao contrario do que escrevera injustamente, sempre estiveram ao seu lado e muito ou pouco, na medida do possível, todos os ajudaram.
O homem envergonhado com o julgamento que fizera de seus amigos percebendo que tinha sido abençoado pois sempre esteve cercado de bons, leais e verdadeiros amigos, rasga a carta e redige uma nova simplesmente com os dizeres:
“ Obrigado meus amigos, por vocês terem feito parte da minha vida”.
Vendo que tinha sido injusto na primeira carta, pega a segunda, a endereçada aos filhos.O homem tinha cinco filhos, o maior com 17 e a menor com 06 anos.
A carta dizia: “Meus filhos, eu sempre os amei, ao meu modo sim, mas nunca deixei de amá-los, porém vocês sempre se mantiveram muito distantes de mim; vocês cresceram e agem como se eu fosse um estranho dentro de casa. Por isso vou deixá-los em paz para que vivam como quiserem. Vocês vão sentir minha falta, tenho certeza”.
Lendo isso, outro flash espoca em sua mente trazendo-o a uma dura realidade.Seus filhos não poderiam agir de outra maneira, afinal ele nunca tinha tempo para eles.Estava sempre ocupado, lendo jornal, assistindo futebol na tv, ou preparando algum trabalho que trouxera de sem emprego para terminar em casa. Recordou quando o filho mais velho promoveu uma festa surpresa para ele juntamente com seus irmãos para comemorar o dia dos pais.Apesar de ter chegado em casa naquele dia, muito tarde, fazendo hora extra no trabalho, foi emocionante.
Aproveitando aquele momento nostálgico, abriu a gaveta do criado mudo e ainda estava lá o presentinho feito na escola pela sua filhinha de cinco anos no ultimo dia dos pais, que por sinal ele não compareceu à festa na escola dela naquele dia, graças a um jogo de cartas com uns amigos.
Repetindo o gesto anterior, rasgou a carta e a substituiu por outra dizendo:
“Perdão, meus filhos, eu não soube ser um bom pai, não soube aproveitar os bons momentos de suas vidas, não os vi crescer. Se pudesse ter outra chance eu faria tudo diferente. Eu os amo...Perdão...”.
Visivelmente abalado e emocionado o homem preste a acabar com sua vida ainda encontra forças para reler a carta endereçada a sua esposa na qual dizia:
“Minha esposa, eu a desculpo. A desculpo por não se interessar mais por mim, por não me notar mais. Sei que a rotina da casa e a atenção para com as crianças têm tomado o seu tempo e por causa disso você já nem nota minha presença na casa”.
Sabe, às vezes quando você saia dizendo que ia ao médico, ao dentista ou até mesmo à cidade pagar contas, eu me questionava: Será que ela vai se encontrar com outro homem? Será que ela não está me traindo? Alguns amigos meus sempre falavam para que eu ficasse “esperto” pois quando a mulher começa a sair muito de casa é porque esta traindo o marido. E essa possibilidade me deixava tão transtornado e cego, que cheguei ate a segui-la algumas vezes, mas não descobri nada.
Mas com tudo isso, assim mesmo eu a perdôo. E a partir de agora a deixo livre para fazer o que quiser da vida. Adeus...
Dessa vez não modificou uma linha da carta, dobrou-a novamente colocando no envelope e depositando no criado mudo juntamente com as outras.
O homem então, prepara-se, faz uma pequena oração, pega o copo já preparado com o poderoso veneno e aproxima-o de sua boca.
O veneno iria agir muito rapidamente, não iria sentir uma dor sequer. Em pouquíssimos minutos sua missão estaria terminada.Era o fim de tudo.
Porém, antes do copo atingir seus lábios, sua mente, numa fração de segundo, como que reagindo a seu ato, o faz lembrar novamente de sua esposa.
Começou a lembrar das vezes em que ela, foi buscá-lo na rua, quando caia bêbado, dando-lhe banho, trocando suas roupas sujas.
Lembrou-se das noites em que ela passou acordada ao seu lado, quando foi hospitalizado. E quando perdeu o emprego, que ela dando-lhe forças, foi trabalhar de diarista em casa de família.
Percebeu o quanto ela era incansável, percebeu como ela tinha criado praticamente sozinha seus filhos. E o que era mais engraçado e nunca tinha percebido: Ela nunca reclamou de nada.Sempre estava de bom humor, nunca adoecia, ou mais provavelmente, nunca demonstrava estar doente.
Ele percebeu finalmente o quanto ela o amava.
Ainda com o copo letal na mão, o homem, voltando à razão, compreendeu por fim que ele era o responsável por tudo. Era o responsável pela distancia dos amigos, pela indiferença dos filhos e pela falta de tempo da esposa.
Compreendeu que daquele momento de desespero ocorreu um milagre.Ele percebeu a tempo seu erro.
O homem, muito emocionado, levanta-se, ainda com copo na mão, vai ao banheiro, joga o liquido na pia, vai ao criado mudo, pega as cartas, rasgando-as por inteiro, volta ao quarto das crianças, abraça-as e beija-as carinhosamente uma a uma.
Dirige-se ao quarto de sua esposa, deita-se ao seu lado beija-a com muito amor e com a voz rouca e olhos inchados de chora a dia: “perdão, meu amor, eu te amo”. Ela ainda sonolenta e sem sequer imaginar o que ocorrera antes, retribui o beijo dizendo simplesmente:
“Eu te amo”.

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