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   > Colibri, uma espécie desprotegida



Vicência Jaguaribe
      CRôNICAS

Colibri, uma espécie desprotegida

O beija-flor passarinhou

Bebeu água e voou.

Mas coitado do beija-flor

Na imensidão não se lançou.

(Vicência Jaguaribe)                    J

Já tratei deste assunto em crônica anterior, publicada na revista eletrônica Conexão Maringá. Intitulei-a “Um sibite entre quatro paredes”, e ela trata de algo que ocorre com frequência em meu apartamento: sibites, vindo beber água na sacada de meu quarto, erram a direção do voo e acabam aprisionados em um cárcere que não é cárcere, por alguém que não é carcereiro. Mas, pobres coitados! Dois já morreram, vítimas de sua própria imprudência.           

Pois não é que, semana passada, entraram dois beija-flores! É! Não pensem que estou louvando, como dizia meu avô materno. É a mais pura verdade. Se duvidarem, perguntem à minha vizinha de andar, dona Miriam Rabelo, uma senhora virtuosa, incapaz de mentir. Bem, entrei em casa e o vi na sala de visitas, voando de um lugar para o outro. Era um colibri adulto, de penugem escura e com uma cauda comprida – alguém já me disse que esse é o macho da espécie; como não sou versada em Ornitologia, nada posso dizer a respeito.            

Abri porta e janelas, para fazê-lo sair, e nada. Ele voava, esbarrava nos vidros das esquadrias, tornava a alçar voo e refugiava-se nos lustres. Peguei uma toalha e tentei derrubá-lo ou encaminhá-lo às janelas. Nada. Chamei meus vizinhos, que também se esforçaram em vão. À noite, tive medo de que ele se queimasse na quentura dos lustres e desliguei as lâmpadas. Quando fui dormir, abri as portas que dão dos quartos para a sacada, deixei abertas as janelas das salas, com esperança de que, sozinho, encontrasse o caminho da liberdade. Pela manhã, entretanto, vi frustradas minhas esperanças. Lá estava o beija-flor na mesma sala. Mas já se notava nele cansaço. Demorava para alçar voo e, quando o fazia, voava baixo.           

Uma das filhas de minha vizinha fez-me telefonar para alguma instituição protetora dos animais. Lá fui eu para o computador, pesquisar no santo Google. Encontrei o telefone de uma ONG que, infelizmente, só protegia gatos e cachorros. Por que essa restrição, não me perguntem. De qualquer maneira, a pessoa que me atendeu me deu o telefone do Ibama, que só trabalha com pássaros agressivos. No Ibama, mandaram-me telefonar para a Polícia:           

 - Senhora, quem resolve esses casos é a Polícia. – E deu-me um telefone.           

- A Polícia! – Exclamei horrorizada. Ora, se a Polícia não dá conta nem dos bandidos, vai se preocupar com um beija-flor inadvertido, que entra no meu apartamento!!!           

O policial que me atendeu disse que não era problema deles:           

 - Quer dizer que vocês vão deixar o bichinho morrer, é?!           

 Ele, então, me respondeu que ia ver o que podia fazer.           

 (Socorro! Corram, senhores defensores de animais, o beija-flor, o colibri, o binga, o chupa-flor, o chupa-mel, o cuitelo, o guainumbi, o guanambi, o guanumbi, o guinumbi, o pica-flor, ou seja lá como o queiram chamar, está totalmente desprotegido. Arranjem uma ONG que olhe por eles, pelo amor de Deus!)           

 Depois de toda essa via crucis, quando estou sentada ao computador, a Noêmia, minha secretária, chama-me:           

- Dona Vicência, peguei ele!           

- Como, Noêmia?           

 - Acho que ele estava muito cansado e quase caiu no chão. Aí eu aparei ele. Vou soltar pela janela.           

- Ah! Espera um pouco, vou pegar a câmara fotográfica.           

 De perto, ele era lindo. As penas, que de longe nos pareciam pretas, eram de um azul escuro e brilhoso. Fotografei-o, e o soltamos. Que alívio! Quando a Noêmia o soltou, ele ameaçou cair. Mas, buscando energia não sei onde, tomou impulso e voou em direção ao... infinito? Não sei. Ficamos à janela e tivemos a impressão de que ele havia caído no telhado da garagem do prédio vizinho. Mas acho que foi só impressão.             Esse desfecho apoteótico se deu no final da manhã. Às dezessete horas, o interfone toca. Era o porteiro dizendo que a Ronda do Quarteirão havia chegado para tentar tirar, de dentro de meu apartamento, um colibri. Se ele tivesse de esperar pela Ronda, hein!!!???           

 No outro dia, não é que outro colibri quis entrar em meu apartamento? A sorte é que a Noêmia estava na cozinha e agiu de imediato. Graças a Deus! É, porque eu não iria aguentar ouvir das autoridades competentes as mesmas explicações e as mesmas negativas.



O verbo louvar, na linguagem do meu avô, era sinônimo de mentir. Não sei se algum dicionário registra essa acepção do verbo louvar. Se não, eis minha contribuição para os lexicólogos.



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