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   > O caminhar e o choro



Maurício Cintrão
      CRôNICAS

O caminhar e o choro

O Pedro usou esta semana seu primeiro par de tênis *. Adorou e não quis mais tirar os calçados. É engraçado acompanhar esses detalhes da evolução dos filhos. São momentos que a gente guarda para sempre.

O pequeno Pedro já é dono de três ou quatro pares de sandálias de borracha (acho que chamam papetes, aquelas de prender com elástico, no calcanhar). Agora, com os tênis, ele inicia literalmente uma nova caminhada pelo mundo.

Esse momento do Pedro me lembrou da minha filha Jéssica, quando a conheci (e me apaixonei) há 12 anos. Foi com sandalinhas brancas e vestido creme que ela chorou pela primeira vez no meu colo, ainda sem intimidade, balbuciando uma ou outra palavrinha difícil de entender. Era março de 1997 e eu começava uma nova caminhada pelo mundo. Acho que usava tênis, mas não tenho certeza.

Naquele dia, fui ao Interior de São Paulo conhecer meus filhos: o João Paulo, que tinha seis anos, a Mônica, que tinha quatro, e a pequena Jéssica, de quase dois. A princípio, achei um absurdo trazê-los todos juntos para casa. Não tinha dinheiro, nem perspectivas de melhorar de vida. Mas o choro da pequenina encontrou dentro de mim os caminhos do convencimento. Foi o jeito da Jéssica se instalar em meu coração.

Nunca é demais lembrar: trazê-los para minha vida foi um desafio que não assumi sozinho. Uma decisão dessas é difícil de tomar sozinho. Foi uma ação que resultou de um projeto desenhado e executado em conjunto com a Regina, com quem era casado na época. Gabriel, meu filho mais velho, que tinha 16 anos de idade, também participou das discussões. Mas a decisão de adotá-los foi do então casal.

Depois desses 12 anos, o Pedro, agora, é o novo pequenino da minha vida. Hoje, sou casado com a Viviane e Pepeu é o sexto filho em uma história que tem dois biológicos, três adotivos e uma enteada (que é filha, também). Tudo isso em três casamentos. E por uma curiosa coincidência, os tênis conquistam os pés do pequenino Pedro no mesmo mês em que se completam 12 anos da entrada de três dos meus filhos em minha vida.

A Jéssica já chorou muitas outras vezes desde que conquistou meu coração. Em alguns casos, chorei junto, amparando e abraçando. Em outros, fui o motivo do choro, seja por um não, uma palmada ou um castigo qualquer. Houve casos em que ela chorou e não tive como impedir, mesmo estando por perto. Tantos outros choros não aconteceram porque eu pude agir. Ambos já choramos em separado aqui ou ali (às vezes pelo mesmo motivo) e porque a vida é assim mesmo: leva a gente chorar e não há o que se possa fazer.

Vendo o Pedro caminhar aos tropeções com seu tênis novo, volto a ficar emocionado e disfarço o choro de pai admirado, feliz por testemunhar mais essa conquista da vida. E celebro a lembrança das tantas conquistas que já tive com todos os filhos, cada um a seu tempo, cada um a seu modo.

Ainda vou rir e chorar com muitas outras histórias construídas pelas crianças (ainda considero a todos como crianças, mesmo ao Gabriel, que casou com a Luanna e segue seu destino). Cada uma das histórias dos filhos é pessoal e intransferível, como a paternidade, mesmo à distância, mesmo em casamentos diferentes.

O Pedro caminha com seus novos tênis e eu agradeço a Deus por está aqui para ver isso. Espero viver muito mais para assistir e depois lembrar dessas pequenas conquistas que constroem o mundo. Como do choro da Jéssica que me conquistou há 12 anos, quando eu nem imaginava que tivesse coração para tanta vida.

(*) este texto já tem um ano, mas vale a pena relê-lo



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