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   > MADRUGADA FRIA, PÃO QUENTINHO...



Adélia Maria Woellner
      CRôNICAS

MADRUGADA FRIA, PÃO QUENTINHO...

Olhando da rua principal, ali no Alto da Caixa d’Água (hoje av. Castelo Branco, junto à praça das Nações), é difícil supor que, naquela casa grande e bonita, revestida de pedras, existia moderna panificadora: a Marumby, cuidada diretamente pelos dois Osvaldos: o Matte, que a criou e instalou, e o Woellner (Passarinho), seu sócio.
Três e meia da madrugada... Estrelas piscando no céu transparente de Curitiba. O frio intenso indicava que, ao amanhecer o dia, com certeza a geada ainda estaria branqueando a grama e o telhado das casas... e até, a madeira úmida dos dormentes da estrada de ferro e das pontes e pontilhões, tão comuns naquele tempo...
1949... 1950... 1955... os anos passavam e, de terça a domingo, o pão era distribuído, religiosamente, aos “negociantes” e para algumas residências particulares. Segunda-feira era o dia de folga, porque, aos domingos, a folga era dos padeiros.
A maioria dos entregadores de pães utilizava carrinho tracionado a cavalo. Nós, porém, já tínhamos mais conforto: meu pai possuía uma caminhonete Ford-41, carroçaria de madeira, pintada de marrom e amarelo-creme. Bonitona mesmo... Três quilômetros, mais ou menos. E a lama faz escorregar. Acho que não sinto nada. Tenho apenas que entregar o pão dos alunos, que o esperam para o café da manhã.
Sinto-me forte, importante. Nenhuma criança é como eu. Tenho orgulho, porque os amigos do meu pai elogiam meu trabalho.
Já passei da metade do caminho. Agora, o difícil é a descida, sem escorregar no capim molhado. Pela rua, não dá. É muito barro... atola o pé.
Os pés deslizam... preciso equilibrar-me, não posso cair, nem deixar as cangalhas caírem. Se elas caírem, os sacos vão sujar no barro, pães vão ficar molhados, e não tenho força suficiente para recolocá-las nos ombros e não há quem possa me ajudar.
Não posso cair... preciso ficar de pé... tenho que chegar lá... os meninos esperam o pão... E continuo.
Enfim, chego. Do portão, sinto o cheiro gostoso do café passado no coador de pano. Entro na cozinha enorme. O fogão a lenha cospe fogo pela boca aberta. A enorme chaleira borbulha e a água fervendo salta pelo bico, fazendo chiado na chapa quente.
Dona Engrácia vem rápida ao meu encontro. Retira as cangalhas. Coloca-as no chão e me oferece café. Não aceito, tenho medo de perder tempo. Mas ela faz que não ouve. Pega uma caneca de alumínio e me dá o café fumegando. Sinto o calor descer goela abaixo. Só então Dona Engrácia vai abrir a boca dos sacos e despejar os pães na mesa grande, de madeira.
Pego os sacos vazios, coloco-os debaixo do braço e começo o caminho de volta. Agora, livre das cangalhas e do peso dos pães, posso correr. Mas a subida é lisa, difícil. Ainda assim, não perco tempo. É preciso andar... andar... e rapidamente.
Alcanço a curva. Logo abaixo, a linha do trem, presa, parada, do mesmo jeito de sempre. Mais uns passos e posso ver se a caminhonete ainda está lá. Estico o olhar e a vejo. Sinto alívio.
Mas ainda falta um bom pedaço. O coração bate forte, quando penso que talvez tenha demorado e meu pai possa ir embora. E eu tão perto... mas não tão perto que ele me possa ver ou ouvir, se eu gritar. Então corro. A respiração é ofegante. Estou com calor e cansada. Mas tenho medo de ficar sozinha ali. Minha casa é longe. Não posso parar, preciso correr.
Enfim, chego. Posso, afinal, sentar no assoalho da caminhonete e deixar a respiração e as batidas do coração se acalmarem. Tomara que o tempo melhore, o sol seque a lama e amanhã possamos ir de caminhonete...


Texto extraído do livro "Luzes no Espelho - memórias do corpo e da emoção" de Adélia Maria Woellner, que se encontra à venda neste site.

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