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   > O que há de biológico nas histórias da dança e da dança de salão?



Maristela Zamoner
      ARTIGOS

O que há de biológico nas histórias da dança e da dança de salão?

Atualmente, o conhecimento humano abarca saberes acerca das origens de nossa espécie, tornando conteúdos evolucionistas irreversivelmente miscíveis com as demais áreas, a exemplificar: sociologia, antropologia, matemática, geografia, arte, direito, lingüística, psicologia, e, entre tantas outras, até mesmo história e dança. Nos dias de hoje, qualquer estudo ou discussão histórica que pretenda alguma seriedade e amplitude, precisa recorrer a estes conceitos, até então, os únicos que permitem compreender de maneira sistematizada a origem biológica dos comportamentos que são construtores de fatos históricos.

A história humana recente foi escrita pela nossa própria espécie, quase como uma auto-observação, naturalmente, limitada. Desta forma, os conteúdos escritos disponíveis são passíveis de questionamentos severos, se não por outras razões, pelo fato de que a história, como um todo, é anterior ao início da produção humana destes registros. Mesmo assim, a leitura das fontes que foram publicadas de forma sistematizada, é indispensável para qualquer análise. Sem leitura e conhecimento efetivo de tais fontes, descrever conhecimentos históricos não passa de uma inconseqüente reprodução de falas superficiais, desprovidas da ciência de suas fundamentações. Desta forma, a atividade perde seu sentido acadêmico.

A história da dança é parte deste contexto de incertezas, sendo possível notar confusões, controvérsias e autores conflitando. Portanto, o debate em torno de suas características primitivas é especulativo e passível de erros grotescos. Para exemplificar, citamos os casos de pinturas rupestres, cujo entendimento depende da interpretação dos estudiosos, resultando em várias idéias, muitas das quais incompatíveis entre si. Nota-se ainda, que estes registros são estáticos, quando a dança é dinâmica. Portanto, não é possível uma caracterização precisa dos movimentos e nem do exato contexto sonoro.

Entretanto, parece haver uma certa harmonia de concordância sobre algumas poucas características desta arte. É possível relacionar, possivelmente com alguma assertividade, atividades primitivas de dança com uma diversidade de circunstâncias da vida dos primeiros seres que a praticavam, como rituais religiosos, de guerra, de caça, de fertilidade, reprodutivos (a exemplo de movimentos realizados por animais em rituais reprodutivos), entre outros. Isto posto, um aspecto merecedor de atenção, é o fato de nossa espécie ter surgido no continente africano, conforme vasta documentação fóssil corroborada pelas pesquisas de biologia molecular. Estudos recentes, partindo das análises do DNA de pessoas oriundas de grupos antropológicos distintos, de diversos territórios do planeta (europeus, indígenas americanos, aborígenes australianos, povos orientais e africanos), revelam, coerentemente, a África como continente de origem comum a todos. Estes estudos funcionam com os mesmos métodos e mesma segurança dos testes já popularizados de DNA, para identificação de parentesco. A diferença é que nestes estudos, as análises são feitas com o DNA de muitos indivíduos ao mesmo tempo, e sua comparação permite identificar a relação de parentesco entre grupos antropológicos distintos. Por este método, é possível saber que os africanos têm seqüências de DNA em comum com todos os demais grupos antropológicos e o inverso não é verdadeiro, o que explicita a origem africana da espécie.

Assim, é possível combinar estas informações com a idéia de que existem expressões de dança humana na África desde antes da dispersão do gênero Homo pelo planeta, que resultou no surgimento de distintos grupos antropológicos. Desta forma, percebe-se que a característica comportamental da dança se espalhou para as demais localidades geográficas, na mesma medida em que os indivíduos do gênero Homo se alastraram pelo planeta. Também se percebe que as modificações genéticas que ocorreram ao longo das gerações que trilharam este percurso, deram origem a grupos antropológicos diferentes, que por sua vez, passaram se expressar por meio de danças também distintas das originais. Independentemente das características das danças que se estabeleceram de forma territorial, em outras localidades além da África, a seleção deste comportamento artístico basal ocorreu naquele ambiente africano e se espalhou juntamente com os indivíduos, sofrendo modificações como eles. A partir daí e das conjunturas históricas que também constituem o ambiente em que cada dança surge, é possível notar que a diversificação de grupos antropológicos consecutiu no florescimento atual de uma quantidade imensa de danças, nas mais variadas distribuições pelo globo: danças tradicionalistas, folclóricas, ballet, dança moderna, contemporânea, jazz, sapateado, hip-hop, break e, ainda entre tantas outras, a dança de salão. Como novas espécies surgem quando uma espécie primitiva é submetida a diferentes ambientes, o mesmo ocorre com as danças, favorecendo a consagração desta diversidade.

A compreensão segura da arte “dança”, portanto, parte de seu estudo como produto do processo evolutivo, submetido às suas regras e seus fenômenos. Autores que relacionam genética, evolução e produção artística são relevantes no âmbito em questão, especialmente pela qualidade científica de suas abordagens. Richard Dawkins é um deles, renomado zoólogo, apresenta, com maestria e lógica impecáveis, idéias sobre a origem das artes. Em meados da década de setenta, propõe o termo “meme”, para referir-se à unidade replicável de conhecimento, fazendo analogia ao termo “gene”, que é a unidade bioquímica de informação replicável. Eis um dos momentos deste estudo que nos permite um olhar mais técnico para a expressão artística da dança como produto biológico da espécie, quando fazemos sua leitura como um conjunto de memes. Este autor mostra, por meio de suas obras, como a arte nasce nas espécies, com a função destacada de artifício competitivo para reprodução. O desenvolvimento cerebral humano é entendido, por vários autores, como produto da seleção sexual, feita por fêmeas que escolheram parceiros reprodutivos com cérebros mais desenvolvidos, preterindo parceiros com cérebros menos desenvolvidos, produzindo, assim, sucessivamente, as gerações seguintes com esta característica selecionada, mais acentuada a cada geração. Na prática, a escolha de parceiros sexuais recai, obviamente, sobre a expressão deste desenvolvimento cerebral: características comportamentais. Isto inclui a escolha de parceiros reprodutivos mais notáveis em suas capacidades cognitivas e, naturalmente, artísticas. Para estes autores, que partem dos resultados de pesquisas genéticas e evolutivas, as fêmeas selecionaram, por milhares de gerações, machos com habilidades cerebrais que ultrapassam as essenciais à sobrevivência da espécie, direcionando a evolução ao transmitir tais características às gerações subseqüentes, moldando uma espécie que produz arte, que produz: DANÇA.

Já é tempo de valorizar e entender a origem biológica do comportamento artístico, da dança e em especial da dança de salão – produtos de seres vivos. Afinal, ciências como a genética, não estão mais cobertas de incertezas.

Neste entendimento ainda há que se citar a Cladística, método de estudo das relações históricas entre os seres vivos (filogenética). De maneira simplificada, esta técnica, cientificamente consolidada, parte do tabelamento das características das diferentes espécies (ou línguas, ou danças entre outras), estabelecendo a relação temporal relativa de surgimento, pela definição de características primitivas e derivadas. Este tabelamento permite a construção de cladogramas, que são representações gráficas semelhantes a árvores genealógicas, o que permite mapear, no tempo, o surgimento de cada espécie (ou dança) e sua relação com espécies (ou danças) precursoras. Já existem publicações de autores lançando mão desta lógica, nas mais diversas áreas do conhecimento humano, por exemplo, para estudar as relações históricas entre as diferentes línguas. Esta é uma estratégia de pesquisa que também já foi proposta para o estudo histórico das danças de salão.

Talvez um dia, teremos diferentes conhecimentos disponíveis para solidificar o saber sobre a história das danças de salão. Quem sabe a biologia possa figurar como uma das peças indispensáveis neste cenário. 03 de abril de 2009

Maristela Zamoner Mestre em Ciências Biológicas, especialista em Educação, licenciada em Ciências Biológicas e pós-graduanda em “Teoria e Movimento da Dança, com ênfase em Dança de Salão”, pesquisadora, autora de artigos e livros em dança de salão (www.maristela.zamoner.com.br).

A redação deste artigo foi inspirada a partir da primeira disciplina (História da Dança), do curso de pós-graduação: “Teoria e Movimento da Dança, com ênfase em Dança de Salão”, cuja segunda turma (atual) teve início no dia 13 de março de 2009, na Faculdade Metropolitana de Curitiba, sob a coordenação de Gracinha Araújo.


Para saber mais: artigos científicos da mesma autora, abordando História da Dança de Salão: Árvores genealógicas e cladística como base para o estudo das relações históricas entre as danças de salão: uma proposta. http://www.efdeportes.com/efd113/arvores-genealogicas-e-cladistica-dancas-de-salao.htm; Aulas de dança de salão em Curitiba: meio ambiente, saúde, sociabilização e técnica. http://www.efdeportes.com/efd119/aulas-de-danca-de-salao.htm


Outras referências: www.maristela.zamoner.com.br

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