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   > Pedagogia do ranço



Maristela Zamoner
      ARTIGOS

Pedagogia do ranço

Em Curitiba, a dança de salão passou por várias transformações. Um dos momentos marcantes ocorreu na primeira metade da década de noventa, quando os salões curitibanos começaram a ser vilipendiados por dançarinos que praticavam danças vindas dos salões do Rio de Janeiro, como bolero carioca, samba de gafieira, soltinho/swing, zouk, danças caribenhas entre outras. Não são estas danças em si que merecem atenção, mas sim, a forma que entraram nos salões de uma cidade como Curitiba, onde se praticava essencialmente o Curinga (dois e dois), com objetivo apenas de sociabilização. Nesta época, formou-se um pequeno grupo de professores e alunos que entravam em bailes curitibanos, e, intencionalmente, exibiam-se, estimulando a idéia de que "destacar-se" no salão era algo bonito. Os bailes se desestruturavam. Após as primeiras demonstrações, as pessoas viam uma dança nova, desconhecida na cidade, de alto nível técnico, sentiam-se constrangidas e se retiravam, esvaziando os salões. Este fenômeno sem dúvida é multifatorial, incluindo a própria natureza do curitibano, mas, foi um momento histórico que ainda repercute no que a dança de salão é hoje.

Naquela época, aqueles professores e alunos eram, todos, muito jovens e a dança de salão foi uma forma explosiva de poder, que não teve moderação, quanto mais reflexão. Não havia como esperar equilíbrio com outros poderes, mais característicos da maturidade, como o da crítica, da consciência, do conhecimento, que teriam feito outra história. Simplesmente, o resultado foi aquele, bailes aniquilados em favor de um regozijo que abrigava em seu cerne uma frustração imponderável e subliminar. Este fator amenizador indiscutível e justificador, a imaturidade, não existe mais.

Hoje, o estímulo para que os alunos "se destaquem" no salão merece séria ponderação por parte de todo e qualquer profissional que ensine dança de salão. Segundo o nosso respeitável dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, destacar é: “fazer sobressair”, “distinguir”. Sobressair é: “ser ou estar saliente”; “dar na vista, atrair atenção” e distinguir: “fazer distinção: discriminar”. Seja pela postura ou pela destreza técnica, “destacar-se”, desta forma, passa, indiscutivelmente pela idéia de "exibir-se" e, naturalmente, de "mostrar-se melhor que o outro", discriminando e implicando, eventualmente, em "competição". Será que queremos nossos alunos buscando isto no salão? Ou será que se quer mostrar o próprio trabalho usando o aluno que vai para o salão? Aqui a reflexão avança da pedagogia para a ética. Há muito tempo a dança de salão conquistou os palcos e as competições, portanto, existem os lugares próprios para "se destacar", "se exibir", como também existem as ocasiões voltadas para fazer da dança uma concorrência. Então, é tempo de nos perguntarmos se os salões de bailes são locais próprios para dar vazão a comportamentos exibicionistas, discriminatórios e competitivos.

Esta questão não é meramente didática, por envolver valores, ela invade o âmbito pedagógico e ético da dança de salão. Será que ainda não é tempo de sugerirmos para nossos alunos que foquem sua atenção exclusivamente no prazer do par, respeitando o salão, o que já demanda bastante concentração? A forma de atingir este prazer ao máximo, talvez passe pelo aprendizado da técnica, que permitirá o domínio do movimento e a harmonia com a música pela condução. E, se ocorrer o “efeito colateral” do “destaque” no salão, que seja bem trabalhado do ponto de vista psicológico, especialmente com adolescentes, que são mais vulneráveis a este tipo de poder. Quando o destaque ocorre, assim, sem ser premeditado, desprovido de arrogância, tem grande chance de envolver positivamente todos os presentes e tornar-se um momento de êxtase coletivo ao compartilhar beleza, o que é bem diferente de discriminá-la intencionalmente.

Airton Kraismann, esposo de Gracinha Araújo (Coordenadora da pós-graduação em Teoria e Técnica de Dança com enfoque em Danças de Salão, FAMEC), é brilhante ao olhar para a questão com a maestria de um grande observador crítico. Airton nos presenteia ao situar, hoje, o que ocorreu no início da década de noventa em Curitiba, como um "ranço" que ainda permanece graças a alguns multiplicadores acríticos que sobrevivem como uma praga, felizmente controlada, que, apesar de fazer seus estragos, nunca chegou a ser maioria. Este "ranço" inclui o estímulo dos alunos, velado ou escancarado, ao exibicionismo, à discriminação, à competição, o que talvez nem seja somente curitibano.

É imprescindível que, como professores, pensemos no que esperar de um salão, se todos ali forem alunos que receberam estímulos, mesmo que subliminarmente (ou pelo exemplo - o que é mais perverso), para "atrair atenção" dos demais sobre si mesmos. Esta é a maturidade da dança de salão? Sobrará espaço para o prazer de dançar a dois, de se deleitar com condução, técnica e música?

Naturalmente, por não ser uma questão didática e sim ético-pedagógica, é tempo de pensarmos se queremos para nossos alunos a Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, que visa a felicidade pelo saber, pela participação consciente, legítima e livre, ou a escravidão perversa, discriminatória e distorcida da busca por "atrair atenção" sobre si mesmo sobrepujando os demais, marcas da Pedagogia do Ranço. 24 de abril de 2009

Maristela Zamoner Mestre em Ciências Biológicas, especialista em Educação, licenciada em Ciências Biológicas e pós-graduanda em “Teoria e Movimento da Dança, com ênfase em Dança de Salão”, pesquisadora, autora de artigos e livros em dança de salão (www.maristela.zamoner.com.br).

A redação deste artigo foi inspirada a partir da segunda disciplina (Introdução aos ritmos brasileiros), do curso de pós-graduação: “Teoria e Movimento da Dança, com ênfase em Dança de Salão”, cuja segunda turma (atual) teve início no dia 13 de março de 2009, na Faculdade Metropolitana de Curitiba, sob a coordenação de Gracinha Araújo.



Outras referências: www.maristela.zamoner.com.br

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