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   > Marias - I



Samuel Ramos
      CONTOS

Marias - I

Maria ouviu o trote do cavalo aproximando-se da porteira. Num impulso, soltou a espiga de milho que acabara de ter os cabelos penteados e trançados por ela. Com as mãos trêmulas, segurou a barra do vestido e correu em disparada através do estreito caminho de terra que cortava todo o milharal e terminava próximo ao imenso terreiro de secar café, nos fundos da casa.
_Onde é que ocê tava, menina? Seu pai ainda há de matar ocê por causa desses sumiços.
_Eu tava brincando de boneca, mãe.
_Cê tava amarrando os cabelos dos milhos outra vez?
Maria ia responder alguma coisa quando o pai adentrou à cozinha, interrompendo a conversava das duas.
_Ocê ainda tá nessa sujeira? Vai caçar um jeito de se arrumar que seu noivo já tá aí na sala esperando pra lhe vê. Fez uma pausa e direcionou-se para a mulher. _E ocê trata de passar um café e trazer aqui na sala.
Mãe e filha olharam-se assustadas e confirmaram com um aceno de cabeça. O homem deu meia volta e saiu fazendo barulho com as botas no assoalho de madeira.
_Eu não quero ver aquele homem, mãe.
_E ocê lá tem algum querê, menina? Desde de quando a gente pode desquerer alguma ordem de vosso pai?
_Mas, mãe...
_Mas nada, Maria. Trate logo de ir botar seu vestido de laço e pentear esse cabelo. Na certa, as espigas estão mais penteadas que ocê. A mulher finalizou e voltou-se para o fogão a lenha que queimava num dos cantos da cozinha.
Enquanto se vestia, Maria ouvia as vozes que conversavam animadamente na sala.
_Eu tenho certeza que o senhor vai fazer muito bem proveito daquela lavoura, senhor Afonso. Eu é porque já desgostei daquelas terras. O visitante falou.
_Já tenho tudo pensado aqui na cabeça, seu Zeca. Tudim aqui. Vai ser o tempo de ocêis casar pra modo de eu mais os meninos começar a trabalhar naquilo lá.
_Aquilo é pra família grande que nem a de vocês. Eu, depois que a mulher morreu, desgostei de muita coisa. Mas pra frente eu até penso em levar vossa filha pra morar na cidade comigo.
Maria sentiu o coração triplicar os batimentos. Ir embora pra cidade com aquele homem que ela mal conhecia? Seu pai não podia permitir uma loucura dessas.
_Cada um sabe o que é melhor pra si. Mas, eu não saio da minha roça de maneira alguma, seu Zeca.
_O senhor é por que foi nascido e criado por essas bandas, seu Afonso. Eu, ao contrário, não. Já vivi uns tempos na cidade e, confesso, ando sentindo um pouco de saudade do movimento de lá.
_É justamente isso que me assusta, seu Zeca. Movimento.
A menina estava estagnada ouvindo a conversa quando a mãe apareceu na porta do quarto com uma bandeja de café e xícaras nas mãos.
_Anda logo, menina. Daqui a pouco teu pai vem te buscar debaixo de porretada.
_A senhora podia falar que eu tô passando mal, mãe.
_Ocê ficou maluca? Seu pai sabe muito bem que ocê tá boa igual um coco. Anda, saía logo desse quarto.
Maria ainda tentou retrucar, mas ouviu a voz do pai chamando seu nome. Sabia que seria inútil inventar qualquer desculpa. Entrou na sala de cabeça baixa e agarrada à mãe que também tinha os olhos voltados para o assoalho.
_Boas tardes, seu Zeca.
_Boas tardes, dona Helena. Com tens passado a senhora?
_Bem, com a graça de Deus. E vossos filhos, como vão?
_Muito bem, obrigado. Ansiosos com a chegada da nova mãe.
Maria sentiu um calafrio percorrer o corpo. Na certa, tratava-se dela. Como isso podia ser possível? Ao que ela recordava-se do velório da falecida dona Lúcia, esposa de Zeca, o primeiro filho deles era mais velho que ela.
_E ocê? Não cumprimenta seu noivo, Maria? Afonso perguntou num tom zangando.
_Boas tardes, seu Zeca. Ela respondeu com a voz tremida.
O homem levantou-se da cadeira onde achava-se sentado ao lado do futuro sogro e caminhou em direção a elas. Pegou uma das mãos de Maria entre a suas e falou sorrindo.
_Boas tardes, menina. Não precisa ficar tão acanhada assim. Muito logo seremos marido e mulher.
Aquilo fez o estômago de Maria revirar e ela pensou que fosse fazer uma sujeira no meio da sala. Puxou sua mão com rapidez e tratou de ir ajudar a mãe servir o café.
_O senhor vai ter que ter paciência com essa daí, seu Zeca. Ela é um pouco arisca mesmo.
Já sentado outra vez, e agora com um cigarro entre os lábios, Zeca sorria enquanto falava.
_Depois que estiver lá em casa, rapinho aprende, seu Afonso. Ela é nova e eu hei de ser um bom professor.
                                                              ...
A visita de Afonso se estendeu por quase toda à tarde e quando ele finalmente se despediu com promessas de um breve retorno, Maria sentia a bunda doer. Ficara tempo demais sentada no banco de madeira ao lado do pai.
_Ocê pode caçar um jeito de tratar melhor o seu noivo na próxima vez que ele vier lhe ver. Esse homem tá salvando nossa vida.
_Eu não gosto dele, pai.
_E ocê lá tem que gostar de alguma coisa, menina? Ocê tem é que me obedecer e dá graças a Deus pelo seu Afonso se interessar por alguém tão mal criada que nem ocê.
_Mas, eu não quero ir embora com ele, pai. Eu faço qualquer coisa que o senhor mandar. Eu vou trabalhar na roça igual os meus irmãos. O senhor vai ver.
O homem sorriu.
_Deixa de falar bobagem, menina. Eu sei o que tô fazendo. Esse casamento vai me render uma quantia de terras que nem se nós trabalhasse o restante de nossas vidas, de sol a sol, ia conseguir adquirir.
Maria calou-se percebendo o quão inútil era discutir com pai. Ela havia sido trocada por um pedaço de terra e nada que dissesse faria o velho Afonso mudar de ideia.
 
 



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