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   > O horror que contagia o estudo que devasta.



David Rodrigues Silva Neves
      CRôNICAS

O horror que contagia o estudo que devasta.

    Por muitas vezes me senti dentro de um campo de concentração nazista. Em certos momentos naufraguei, tomei tiros a esmo, corri de caçadas sangrentas e até enxerguei demônios me abraçando pela noite. Estudar a História, de forma diária e sistemática, pode te levar a reviver contextos dentro de sua própria época. Não é de surpreender que os temas mais adorados e vendidos sejam àqueles ligados a um passado de violência, no qual as guerras mundiais disputam diversos expectadores. Sanha maldita essa de boa parte dos seres humanos por sangue a qualquer custo. Claramente que os genocídios europeus e até mesmo os situados na América, também tem um peso substancial. Já os da África, que hoje aparecem em grande proporção, devido a “redescoberta” do continente, seus povos, suas culturas e todas as demais riquezas humanas, parecem não impressionar muito. Nesse emaranhado estão os pesquisadores em geral, expectadores internacionais, cidadão comuns e historiadores. Esses últimos, assim como eu, tem uma missão diária que possibilita embebedar-se de sangue, pavores psicológicos, torturas e agressões de todas as formas. No meu caso, que estudo os processos judiciais do pouco conhecido, Tribunal de Segurança Nacional (1936-1945), instituído na primeira era Vargas, para julgar comunistas, inicialmente, depois todos os possíveis dissidentes em relação a ditadura do Estado Novo (1937-1945), o nazismo e os acontecimentos ligados a II Guerra Mundial não é raro ampliar o leque dos temas e cair nas atrocidades cometidas tanto do outro lado do atlântico ou mesmo aqui no país do carnaval. Conforme as especificidades passam a virar rotina, e os estudos se acirram, a brutalidade aparece de forma mais dolorida e real. Há tempos, estive em uma palestra de um sobrevivente de um campo de extermínio. Tudo o que ele disse não tocou tanto como o aviso que ele queria deixou bem claro: “Todas as barbáries que foram cometidas conosco se repetiram e se repetem no mundo sem que nenhuma força governamental tente impedi-las”. Levadas as devidas proporções do holocausto para outros temas ligados ao massacre em Ruanda, a perseguição étnica em diversas partes no mundo, podemos pensar se o mundo está mais violento ou se a violência se tornou algo banal, imposta por quem e mais “forte” sobre aqueles que devem sempre aceitar seu destino, os mais “fracos”. A burocratização desmedida, o apego ao consumismo sem freios e as inúmeras apatias cotidianas, parecem nos colocar em uma situação de que pouco ou nenhum interesse temos com relação as mazelas sentidas por diversos outros seres humanos ao redor do planeta. No mesmo passo, ONG’s como os médicos sem fronteiras e mesmo a ONU ampliaram seu campo de atuação em áreas situadas na Ásia e na África. Bem, esse é um tema complexo do qual não quero me deter nessas linhas. Todavia, é impossível não pensar nesse global alucinante e minha pesquisa em específico. Assim, não seria desmedido citar o quanto o sofrimento e o desanimo perpetuam em nossos estudos direcionados. A voz que sai em denúncia para com esses absurdos e inúmeras violações são necessárias e imprescindíveis. No entanto, conhecer mais nos direciona a um fato: deprimir-se mais. Raymond Queneau cita que a História é a ciência da infelicidade dos homens (mulheres). Não há dúvida do quanto ele acertou. Para mim, fazer história não é só acertar as metodologias e separar um recorte temporal (você até ganha um título por isso). É necessário, um aprofundamento, certa vivência com aqueles personagens, um entendimento da época e fatidicamente, uma amargura com seus desfechos. Poderia o leitor se perguntar: ora, por que você não estuda algo mais “leve” ou pacífico? Isso poderia ser possível, mas o que diria para aquelas vozes e sonhos que tendem a me visitar quando durmo, empunhando os mesmos dizeres: não se esqueça de nós.

Davi Rodrigues Silva Neves 
Doutor em História pela Unicamp
 
 



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