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   > Há um grito entalado!



Airo Zamoner
      CRôNICAS

Há um grito entalado!



Há um grito entalado na garganta de Ademar. Há um grito entalado na garganta dos amigos de Ademar. Há um grito entalado na garganta dos vizinhos de Ademar. Há um grito entalado em minha própria garganta. Há um grito entalado em todas as gargantas dos homens de bem. Há um grito entalado na garganta da nação.
Gritos entalados costumam libertar-se intempestivamente, imprevisivelmente, de várias formas.
Pode ser na forma de um grito puro. Alto, muito alto, contendo um chamado para o perigo abrupto, parecendo grito de socorro.
Pode ser um grito de rendição. Emitido baixo, rouco, parecendo algo desesperado, em vias de morrer sem cura.
Pode ser forte, raivoso, parecendo simplesmente um grito de guerra.
Sinto a nação inteira com este grito perigoso, inevitável. Não sei se virá um grito de rendição, de socorro, ou de guerra. Mas há um grito a ser ouvido em breve. Muito breve.
Na verdade, a nação está em vias de explodir neste grito. E quando falo nação, falo do numeroso agrupamento humano fixado neste território imensamente belo, feito de pessoas ligadas por laços históricos, culturais, econômicos, lingüísticos. De gente que luta, que sua, que sangra, que ri, que inventa, que improvisa, que morre, que sobrevive.
Mas, há outra nação dentro de nossas fronteiras. Um agrupamento que não nos pertence. Uma súcia de salteadores a viver numa outra dimensão, formando um imenso grupo de teatro profundamente profissional, entretanto, sem arte. Exerce meticulosamente sua tarefa de representar durante as vinte e quatro horas de todos os dias. Não deixa transparecer que tudo é sofisticada e malandra representação teatral, maquiavelicamente mal-intencionada. Dizem sempre que se trata de “representação popular” ou “representação política”. E temos caído nesta esparrela. É que nós, da nação brasileira, não temos tempo para teatro desta espécie. Precisamos cuidar de nosso sustento, de nossa sobrevivência, de nossa segurança, de nossa saúde, de nossa educação e ainda dobrar nossas horas de trabalho para remunerar estes atores-bandidos que não nos divertem, mas nos assaltam. Eles nada têm de humano. São numerosos e estão fixados em palcos de nosso território a que não temos acesso. Estão também ligados por laços culturais, mas demoníacos, econômicos, mas gananciosos, históricos, mas espúrios. E fingem pertencer a nossa grande e honesta nação verdadeira...
Sei que este grito está por sair a qualquer momento. Pode ser um grito de sangue, de revolta, de raiva, embora ainda não de ódio. Um grito que poderá destruir o falso teatro e destruir a todos, acompanhado de estampidos e explosões, de tanques e canhões, de tomada de territórios, de cercos, de destruição, de morte. Um grito que provocará o vazio de terra arrasada.
Mas pode ser também um grito de revolta, sem o líquen vermelho da vida desperdiçada. Um grito rebelde feito no clique quase silencioso da tecla das urnas. Um grito para demitir peremptoriamente todos os atores ordinários, indiscriminadamente, indistintamente, definitivamente.
Este será um grito eficaz e eficiente. Com ele, destituiremos todos os políticos e, corajosamente, todos os candidatos, antigos ou novos, velhos ou jovens, brancos ou negros, baixos ou altos, gordos ou magros. Com o dedo em riste, daremos o bilhete azul coletivo, num gesto estrondosamente barulhento de quem, como nós, tem realmente o poder e o saber, a arma e a alma, a força e a bolsa, o canhão e a canção.
Um grito pacífico que também vai gerar o vazio de terra arrasada, mas arada, queimada, mas curada. Terra pronta para novo plantio, nova germinação, novas colheitas.
Depois, escolheremos entre nós mesmos, sentinelas vigilantes. Impediremos, terminantemente, que incompetentes, corruptos, mal-intencionados, traficantes, bandidos, mentirosos, assaltantes dos cofres públicos, usurpadores das esperanças, despreparados, larápios, safados, assassinos e quejandos voltem a subir a rampa. Qualquer rampa.
Está aí o grito entalado na garganta de Ademar, dos homens, mulheres, jovens e crianças da platéia. Torço para que seja um grito sem sangue, mas é inexorável: haverá um grito que expulsará dos palcos, com a força da alma, ou da arma, os aproveitadores que ousaram enganar por tanto tempo uma nação honesta e confiante.
Olho para Ademar e vejo o grito na iminência de sair e imploro ao universo insondável que seja um grito de paz!

Airo Zamoner é autor do livro “Bagunçando Brasília”


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