Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (641)  
  Contos (940)  
  Crônicas (724)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (207)  
  Pensamentos (651)  
  Poesias (2526)  
  Resenhas (129)  

 
 
Ressurgindo do Nada
Rosângela Inês Renz...
R$ 21,55
(A Vista)



A Caçada do Tatu
José Daniel Deodoro
R$ 41,90
(A Vista)
INDISPONÍVEL




   > Estrangeiro, onde?



Tânia Gabrielli-Pohlmann
      ARTIGOS

Estrangeiro, onde?



Terminada a Segunda Guerra Mundial, a mão-de-obra da qual a Alemanha dispunha para a sua reconstrução era constituída de mulheres, crianças e idosos. As mulheres, viúvas de guerra, tornaram-se conhecidas pelo termo “Trummelfrauen”, ou mulheres que trabalhavam na retirada dos escombros de edifícios destruídos. À hora de passagem dos trens carregados de carvão, centenas de pessoas corriam à ferrovia; as crianças eram jogadas sobre os vagões em movimento e atiravam carvão aos adultos que corriam paralelamente aos trens. Era o aquecimento garantido de forma gratuita.
Nesse contexto, a Alemanha, até então país de caráter emigrativo, viu-se obrigada a convidar mão-de-obra estrangeira para a sua reconstrução. Vieram portugueses, espanhóis, italianos entre outros. A idéia inicial era a de que tais estrangeiros, terminado o trabalho, retornassem a suas terras pátrias. Mas não foi o que ocorreu. A maioria foi ficando e se estabelecendo, construindo famílias e formatando a nova geração miscigenada.
A partir dos anos oitenta, o volume de imigrantes passou a crescer avassaladoramente. A Alemanha vê-se, hoje, num processo de profunda mudança em sua sociedade. E tenta se adaptar ao fato de ter passado a um país de imigração – o que, naturalmente, vem gerando discussões, conflitos, preconceitos. Muito lentamente vão-se formando associações culturais de diversos países. O acesso a publicações estrangeiras vai crescendo e se expandindo, inclusive, de maneira interna: muitos cidadãos estrangeiros ou seus descendentes, passam a reunir opiniões e a organizar veículos de comunicação impressa e eletrônica.
Desde 1999 vivo em Osnabrück, no noroeste alemão. A cidade que, em parceria com Münster, assinou o Tratado da Paz Vestfálica, em 1648. Aqui, na chamada “Cidade da Paz”, residem representantes de 142 nações. A prefeitura utiliza, no entanto, dois slogans paradoxos: de uma lado: “Osnabrück, a cidade das 142 nações”, de outro lado: “Por sorte, sou de Osnabrück”. Como estrangeira que vive o preconceito no dia-a-dia, uma certa revolta me envolve, sempre que vejo os adesivos em carros com o último slogan. Como brasileira, nascida de família italiana, tento compreender tal paradoxo como expressão do medo que o desconhecido, o “estranho”, provoca. O tema tem sido exaustivamente abordado, seja em discussões, palestras, eventos culturais, programas de rádio.
Tenho tentado expor nossa história e nossa cultura, lutando contra os estereótipos que o europeu ainda conserva com relação ao Brasil. Seja através de meus programas de rádio, do Boletim A Casa dos Taurinos ou de minhas colaborações com portais e publicações dedicados ao Brasil, procuro sempre abordagens históricas, análises profundas de nosso universo miscigenado, múltiplo, plural. Para tanto tenho utilizado importantes fontes de consultas, como o Arquivo do Estado de São Paulo, criado em 1721, e a Revista Histórica, também pertencente ao Arquivo do Estado, agora em versão eletrônica, e com periodicidade mensal. Além de respaldo a minhas pesquisas, trata-se de redescobertas sobre minhas origens, as origens de meu país, de meu povo.
Meus pensamentos procuram processar tais paradoxos. Tenho-me projetado muito nas histórias contadas por meus avós e pais, sobre o que era ser estrangeiro no Brasil, já a partir da Primeira Guerra Mundial, quando se evidencia um intenso crescimento no índice de imigração. Mais intenso do que o observado após a abolição da escravatura. Especialmente os alemães e italianos. Meus pais, ainda crianças, não podiam falar italiano. Nem ouvir rádio, após as 20.00hs. Recebiam “cotas de produtos alimentícios”. Eram discriminados, como o sou aqui…
Por outro lado, o “estranho”, já a partir da década de 20, passou a ser tema de reflexões, de tentativas de reconhecimentos e ou aproximações. Nesse período circulavam jornais ou colunas especializados na questão das diversas culturas, ainda que de forma irônica, humorística e encabeçadas por brasileiros. Os chamados “macarrônicos” tiveram seu espaço por décadas e exercitaram, assim, discussões – ainda que indiretas – a respeito do “outro”, do “ser diferente”. Na literatura brasileira, vários são os clássicos que inserem os estrangeiros se adaptando à nossa terra e os brasileiros questionando certas diferenças culturais.
Há pouco recebi a 84°. edição da RDC – Revista de Divulgação Cultural, da Fundação Universidade Regional de Blumenau e surpreendi-me positivamente com os temas abordados, tendo como foco central “o estrangeiro na literatura brasileira”.
Toni Edson Costa Santos, mestrando em Literatura Brasileira, pela UFSC, apresenta artigo sob os “Estranhos e Estrangeiros em Budapeste”, abordando o elemento estrangeiro no romance “Budapeste”, de Chico Buarque. “O que tem para fazer em Budapeste?” Toni Edson concentra-se “…no romance e não na cidade”, analisando o discurso, numa investigação abrangente e intensiva sobre a presença do estrangeiro/protagonista em Budapeste e as possíveis analogias com as imagens construídas por Graça Aranha sobre os magiares de “Canaã”, resgatando a impressão de Guimarães Rosa a respeito do país que cita no diminutivo. A questão da miscigenação como elemento desvalorizante de um país tem efetivado preconceitos advindos, ainda, das imagens projetadas no exterior.
No ensaio “O Fantasma do Oriente em uma Reportagem de Guilheme de Almeida”, a Acadêmica de Pós-Graduação em Literatura da UFSC, Cláudia Grijó Vilarouca, aborda a visão do elemento oriental na obra “O Oriente mais que próximo”, de Guilherme de Almeida, partindo dos componentes físicos, descritos sob discurso carregado de metáforas reveladoras de rejeições e medos e, segundo Cláudia, através da coisificação do outro, do estrangeiro. Passado o primeiro momento de “susto” e rejeição fundamentada nas fantásticas imagens a respeito do Oriente “exótico e perigoso”, a humanização do “outro” dá-se num crescente aproximar-se de, do conhecer e perceber a possibilidade humana por trás do “esquisito” até então percebido em primeiro plano.
A “Identidade Germânica e Naturalização no Macarrônico Alemão de A Manha”, de Ana Carina Baron Engerroff, também Acadêmica de Pós-Graduação em Literatura da UFSC, remete às já citadas publicações chamadas “macarrônicas”, que circulavam em São Paulo a partir de 1911, como os paulistanos “O Pirralho”, “O Queixoso”, em 1915, “A Vespa”, em 1916, “O Diário do Abax’o Piques”, de 1933, e no Rio de Janeiro, em 1926, com o jornal “A Manha”, que circulou até 1952. Várias culturas eram representadas em seus elementos lingüísticos inseridos numa língua portuguesa como língua estrangeira, em pleno aprendizado. Ana Carina focaliza todo o processo de integração não apenas do elemento estrangeiro na cultura brasileira, como o inverso. Obviamente a projeção das imagens se faz presente no “A Manha”, sob o aspecto estigmatizador do olhar crítico do “superior” alemão sobre nossa cultura, buscando, ainda, “a identificação, pelo leitor, da origem étnica dos autores supostos…”. Trechos da publicação são transcritas, possibilitando ao leitor atual a verificação não apenas do fato lingüístico deste processo integrativo, como do cenário histórico do Brasil como país de incipientes miscigenações, agora, não limitadas ao elemento africano, inserido não voluntariamente em nossa cultura.
O olhar sobre o “estranho” inverte-se no artigo de Márcia Fagundes Barbosa, Doutoranda de Teoria Literária, pela UFSC, recortando o processo migratório no sul brasileiro, em “Identidade e Diferença: Dr. Blumenau descreve os Brasileiros”, revelando, ainda mais intensamente, o traço dominante e intolerante germânico até mesmo fora de seu país. Dr. Blumenau, após sua viagem ao Brasil, analisa o sul brasileiro em seu livro “Sul do Brasil em suas Referências à Emigração e Colonização Alemã”, de 1850. Desenvolve uma análise detalhada das condições favoráveis à imigração naquela região. Márcia Fagundes Barbosa cita ocorrências de natureza conflituantes, até mesmo entre os alemães já residentes no Estado e os demais estrangeiros vindos mais tarde. O elemento antropológico em interação com o cultural resvala na inflexibilidade do estrangeiro que chega, a fim de tentar impor-se e exercer a predominância. A interação cultural, segundo Blumenau, é visto sob os critérios europeus com relação ao “ser superior” que não se miscigena, que se sente superior pelo tom da pele e vê o sistema legislativo brasileiro como “suave demais”.
A integração do imigrante libanês, no romance “Nur na Escuridão”, de Salim Miguel, é analisada pela Acadêmica de Pós-Graduação em Literatura pela UFSC, Tânia Mara Cassel Trott, em “Luz e Sementes Sobre a Terra”, que fornece dados valiosos de toda a história da imigração libanesa, com detalhes do universo conflituado do imigrante que se tenta estabelecer na terra desconhecida. As dificuldades com a língua, a busca pela estabilidade profissional e pela identidade com a imagem do ser confiável, apesar de “estranho”, que às vezes renega sua própria identidade, a fim de ser aceito, modela o caráter fragmentado da vida do recém-chegado, descrita na obra citada que, apesar de ficção, descreve a história familiar do Autor.
Keli Cristina Pacheco, Doutoranda em Teoria Literária pela UFSC, avança para o período pós-colonial, em seu ensaio “A Genealogia não-dita – A prolepse dos pós-colonial em Vida e Morte de M. J. Gonzada de Sá, de Lima Barreto”. No discurso de Lima Barreto, o elemento estrangeiro forma, a partir da assimilação de várias culturas, uma auto-identidade também mitificada pela aceitação do múltiplo na cultura brasileira, sob a pele de Gonzaga. Paradoxos, contradições, medos camuflados sob simpatias e ou radicais rejeições, refletindo os fenômenos e as “deficiências” sociais, são atalhos metaforizados da questão racial. Raça e nação, personalidade e suas reflexões sociais, num contexto de assentamento dos incômodos e das curiosidades suscitadas mutuamente.
Os riscos que a generalização pode causar, especialmente na interpretação monolítica da literatura em contrapartida com o histórico, são analisados por Rita Salma Feltz, Acadêmica de Pós-Graduação em Literatura pela UFSC, em “Representação: Um Acordo Social”. A abordagem dos modos de representação dos elementos estrangeiros em nossa literatura, inclusive a literatura produzida em diversos períodos, sob diferentes possibilidades contextuais. A indagação sobre a possibilidade de se classificar o macarrônico apenas como representação social, subjetiva ou como obra literária, busca não uma tomada de posição, mas sim uma exposição múltipla de dados e conceitos, que permitem ao leitor formalizar sua decisão.
“Vergonha dos Pés”, primeiro romance de Fernada Young, é objeto de releitura de Karelayne Coelho, Doutoranda em Teoria Literária pela UFSC, que parte dos conceitos sobre estereótipo e preconceito, já enfocando tal dicotomia com relação à própria autora. Em “Um Francês em minha casa”: Estereótipo e Preconceito em Vergonha dos Pés, de Fernanda Young”, Karelayne Coelho chama a atenção para o cenário contemporâneo em que o elemento estrangeiro se encaixa em nossa literatura, ainda que esta literatura seja contestada em sua validade ou em seu traço superficialista da chamada “cultura de massa”. Interessante a focalização do processo de desenvolvimento cultural do indivíduo estrangeiro sob o peso do estereótipo, contra o qual nem sempre consegue se mover ou expandir, em oposição ao lento desenvolver do preconceito, optativo, buscado pelo próprio ser.
Enfim, a editora da RDC – Revista de Divulgação Cultural, Maria José (Tuca) Ribeiro, mergulha no universo de Clarice Lispector, fazendo emergir seu ser, ela mesma estrangeira, através de Macabéa, estranha em seu próprio país. Tuca Ribeiro, em “Clarice Lispector e Macabéa, de A Hora da Estrela: Um Estudo sobre o Outro, o Estrangeiro”, traça um paralelo baseado em dados biográficos da Autora e de sua personagem, a origem judaica nem sempre citada por Clarice, mas claramente enunciada em vários de seus textos.
A propósito: híbrida a linguagem, também assim as chamadas “coincidências”, nas quais não creio... Exatamente ao terminar a leitura da RDC de número 84, retiro do armário o exemplar de “A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector, editado pela Edições UNESCO, sob número 13 da Coleção Archivos. Esta segunda edição crítica, coordenada por Benedito Nunes, datada de 1996, é, sem dúvida e como a citada RDC – Revista de Divulgação Cultural - , imprescindível na biblioteca de amantes da pesquisa.
João Cabral de Melo Neto abre a obra com seu poema “Contam de Clarice Lispector”, retirado do livro “Agrestes” (1981-1985, Editora Nova Fronteira), e vem seguido pela liminar de Antonio Candido, numa abordagem panorâmica da obra de Lispector.
A descrição de Clarice mulher, pessoa, amiga, que Olga Borelli registra em “A Difícil Definição”, remete o leitor a um mergulho fascinante pela personalidade dicotômica de Lispector e de sua obra.
Benedito Nunes assume a transcrição da estrutura medular do volume crítico, em contraponto à falta dos originais de “A Paixão Segundo G.H.”, paralelamente a referências bibliográficas e dados biográficos da Autora.
O texto é seguido de fac-símile do manuscrito de “A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais”, com a transcrição dos fragmentos na ordem que tomaram na versão final, e finalmente com a íntegra do mesmo.
Nádia Battella Gotlib, ensaísta e professora da Universidade de São Paulo, investiga os contextos histórico e literário brasileiros, a partir do nascimento de Lispector e de sua carreira literária.
Benjamin Abdala Júnior e Samira Youssef Campedelli encadeiam os passos de Clarice Lispector sob os olhares da crítica de sua época e da contemporânea, seguindo-se a Cronologia e “Leituras do Texto”, sob vários aspectos e tendências, como “Paródia e Metafísica”, de Olga de Sá, “O Ritual Epifânico do Texto”, de Affonso Romano de Sant’Anna e “A Lógica dos Efeitos Passionais: Um Percurso Discursivo às Avessas”, de Norma Tasca.
A quinta parte deste volume contém o Dossiê, com os fragmentos de “Fundo de Gaveta”, com a entrevista que Clarice Lispector concedeu a João Salgueiro, Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti, para o Museu da Imagem e do Som, Rio, em 1976. Ainda nesta parte, duas cartas da Autora a Olga Borelli, capas da primeira edição brasileira e da japonesa e “Recepção Crítica”, contendo artigos de José Américo Motta Pessanha, Luís Costa Lima e Solange Ribeiro de Oliveira.
Fechando o volume, a bibliografia assinada por Glória Maria Cordovani e atualizada por Valéria Franco Jacintho.
Enfim, nos artigos publicados nesta edição crítica de “A Paixão Segundo G.H.”, não se encontram menções às pistas mais que óbvias que Clarice nos fornece de sua origem judaica. Mas ainda assim, ousei inserir tal menção aqui, em acréscimo ao trabalho de Tuca Ribeiro. Pensando e repensando Clarice daqui, de fora do Brasil, com o mesmo sentimento do “ser diferente”, que me tem revestido. E simplesmente aceitando o ser. Diferente. Outro. Estranha. Brasileiramente estranha. “Por sorte, sou do Brasil”...

Arquivo do Estado: www.arquivoestado.sp.gov.br
Revista Histórica: www.historica.arquivoestado.sp.gov.br
RDC – Revista de Divulgação Cultural: Rua Antônio da Veiga, 140 Victor Konder CEP 89012-900 ou Caixa Postal 15 07 Blumenau – SC. E-Mail: rdc@furb.br
Coleção Archivos – Edições UNESCO: www.unesco.org/publishing



Tânia Gabrielli-Pohlmann é escritora, editora e professora. Nascida em São Paulo, capital, vive em Osnabrück, Alemanha, desde dezembro de 1999, onde apresenta dois programas de rádio (“Brasil com S” e “Revista Viva”, este com Clemens Maria Pohlmann) sobre a história, a cultura, a literatura e a música brasileira, abrindo espaço, inclusive, a artistas independentes. Divulga a cultura brasileira através de várias publicações brasileiras e européias, além de seu Boletim A Casa dos Taurinos, editado em português e alemão. Contatos: a-casa-dos-taurinos@osnanet.de


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui