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   > Calma, Vergueiro!



Airo Zamoner
      CRôNICAS

Calma, Vergueiro!



Pacífico disse, com muita convicção, para ninguém se preocupar com essa barafunda que está acontecendo por aí. Vergueiro, ao contrário, é sujeito ansioso, inquieto de nascença. A cada nova denúncia, a cada novo pronunciamento, a cada novo indício que pinta nos jornais, nas emissoras, nos corredores, na rua, cresce dentro dele a indignação, a revolta, o ódio. Seu corpo treme, sua voz enrouquece, seus olhos chispam faíscas, sua fala perde a lógica. Veias saltam pulsantes pelo pescoço. Vergueiro sofre!
Vergueiro ama a ordem, a decência, a correção, a lealdade, o respeito, a dignidade, a competência, a verdade.
A cada dia que passa, vê o governo, que ajudou a eleger, degradar-se mais e mais. Vê seu ídolo desmanchar-se aos poucos, derretendo-se entre arrogância e infantilidades. Vergueiro precisa fazer alguma coisa. E tem que ser algo muito forte. Algo que abale as estruturas putrefatas que mal sustentam as colunas do palácio.
Pacífico, por sua vez, pede calma: o que terá que ser, será, como cantava Doris Day nos tempos áureos em que facínoras não eram covardes. Tempos em que bandido encarava o mocinho em igualdade de condições no duelo entre o bem e o mal.
Hoje, o bandoleiro se camufla com as fantasias mais absurdas de bom moço. Empoleira-se nas varas do poder e usa a ingenuidade de um povo desarvorado que trabalha dia e noite para sustentar a luxúria e a incúria, a ganância e a ignorância, a incompetência e a inapetência de seus representantes-bandidos.
Onde está o mocinho que não vem redimir este povo cansado, atordoado, roubado, enganado? Enquanto o salteador se traveste, o povo se desveste e procura o rei vestido que está nu. Um rei que se esconde na mentira da fala, do gesto, do olhar, da intenção, da alma e se esconde no discurso teatral, ilógico, abobalhado, fraudulento.
Onde está o mocinho que ficará indignado com as malas de dinheiro, viajando lépidas e soltas em busca de mãos sujas e avarentas? Mãos agora flagradas em carícias aos pacotes timbrados. Mãos cujos donos tramam nos bastidores escuros nova manobra safada, confiantes no engodo fácil, contando com a simplicidade analfabeta das gentes afastadas criminosamente da instrução e da informação, acostumadas apenas na crença da palavra sagrada, dita uma só vez e eivada sempre de verdade santa. Onde está ele?
Pacífico sorri o sorriso dos sábios e pede a Vergueiro que aquiete sua alma em chamas. A história se encarregará do acerto de contas, diz ele. Não será preciso Vergueiro vergar as torres dos palácios. Elas cairão sozinhas. Que ele tenha a paciência dos profetas e a fé dos sacerdotes.
O mau cheiro já ultrapassa as fímbrias dos tapetes luxuosos que ensaiam a maior greve da história. Recusam-se, finalmente, a ocultar a gosma escura que fede nos corredores intocáveis do poder espúrio, porque advindo da fraude contra a esperança, da dissimulação contra a confiança, da fanfarronice contra a fé.
Mas quem há de saber o que Vergueiro realmente fará? Vergueiro é o mocinho que vai cavalgar pela planície e galgar os montes do planalto. Vai encarar os bandidos que subiram a rampa e agora escorregam nos próprios excrementos, ladeira abaixo. O cavalo relincha alto. Vergueiro pula rápido no lombo sem cela. O galope ecoa no asfalto negro e encobre o grito de Pacífico que inutilmente pede calma.

Airo Zamoner é autor do livro “As companhias do Presidente”

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