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   > A alemãzinha



Amarilia Teixeira Couto
      CRôNICAS

A alemãzinha

A alemãzinha

Ela chegou na escola como um tsunami.Estilo roqueira com punk, emo e mais características de outras tribos.Fato é que a sua entrada foi eletrizante.Ela sentou-se com sua mãe diante da porta da coordenação, aguardando o encaminhamento para a sua sala, que seria feito por mim mesma, depois de garantir a entrada dos alunos.
O sinal para o início das aulas foi dado e... Quem disse que a garotada arredava pé de perto dela? Repeti o sinal com maior intensidade, dei umas broncas nos mais renitentes e a custo de alguns gritos, a turma se dispersou, buscando cada qual a sua sala.

Pelos meus muitos anos de educadora, senti o cheiro de confusão no ar.
Aulas iniciadas, fui conversar com mãe e filha.Aí atentei aos detalhes do visual da nova aluna: cabelos multicoloridos, com tons que variavam do lilás claro ao roxo "sexta-feira-da-paixão", passando pelos degradês de vermelho e outras colorações indefinidas.Os piercings eram incontáveis, assim como as tatuagens.A calça jeans, colada ao corpo, parecia uma segunda pele, e o boné estiloso era de tecido xadrez ,com detalhes em pedraria.Visual arrasador para uma escola pública que se empenhava há muito tempo ( e tinha até orgulho disso) em manter a garotada de uniforme, sem bonés (proibido com aval dos pais, no início de cada ano letivo), para garantir uma tranquilidade maior na escola.Então chega a alemãzinha, prometendo ser um estopim que estabeleceria o caos num ambiente já com suas dificuldades próprias de educandário da rede pública e de educação inclusiva.
Dediquei um bom tempo em ouvir a história de vida da recém-chegada. A cada episódio narrado, mais se consolidava a minha certeza de que tinha diante de mim um problemão.Quando a gente pensa que já viu de tudo, a gente percebe que não é verdade.Os relatos passavam da mãe para a filha.No rosto da mãe evidenciava um pedido de socorro.No rosto da filha, a revolta, o olhar endurecido.Sua voz denunciava um desejo de destruição, de si e de tudo que estava ao seu redor.As palavras saiam de sua boca entrecortadas e sua inquietação apontava um desiquilíbrio psicológico que raramente presenciei em tantos anos de trabalho.E isso tudo no primeiro contato!
E ela foi conduzida à sua turma e devidamente apresentada aos colegas e professores.
Por tudo que ouvi das duas, tinha certeza que ela passaria mais tempo fora de sala do que dentro.A menina já tinha passado por umas dez escolas em seus treze anos de existência.Nascida na Alemanha, era filha de mãe brasileira e pai alemão.Lá, num país de primeiro mundo, não conseguiram ajudar a garota.Agora aqui, já passou por várias instituições, particulares e públicas e... nada! Por onde passa é convidada a se retirar.
Como sempre, quando ouço os relatos dos pais dos nossos alunos, na maioria dramáticos, penso no quanto estamos despreparados e desassistidos para lidar com as diferenças.A escola recebe todo tipo de aluno ( e deve ser assim mesmo), muitas vezes é o Juiz que determina que o menor infrator seja encaminhado para esta ou aquela escola.Mas ninguém, nenhuma autoridade faz o acompanhamento do educando em questão.As medidas são tomadas pela metade, comprometendo qualquer possibilidade de êxito na intervenção pedagógica.
Mas voltando à nossa alemãzinha, a minha intuição já se comprovou.Em um mês em que ela está conosco, já tentou fugir da escola,já deu crise histérica em sala, nunca atende aos pedidos dos professores, enfim, é um tsunami que vem confirmar a fragilidade do sistema educacional como um todo.
Vamos continuar chamando a família da alemãzinha, fazendo novos relatórios para o psicólogo, mas os desafios não terminam aí.A Escola pede socorro. A cada dia recebemos mais alunos com comprometimento psíquico grave, com desestrutura familiar absurda e as autoridades insistem em cobrar das escolas sem oferecer uma ajuda profissional consistente.
Já falei num outro artigo que o Governo faz uma economia burra.Deixa de investir qualitativamente na educação e acaba por gastar uma quantia astronômica com presídios de segurança máxima que nada resolvem.
A nossa alemãzinha nada mais é que a comprovação do que uma criação equivocada pode causar numa criança e o quanto uma educação apenas caucada na legalidade, em normas disciplinares rígidas não atendem alguns casos ( que se multiplicam em ritmo vertiginoso).Ou tem algo de muito errado no sistema educacional como um todo, ou sou eu que não tenho capacidade de entender por que uma menina de treze anos já passou por dez escolas e não pôde ficar em nenhuma.Alguém se arrisca a dizer onde está o erro?



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