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   > Moça velha



Amarilia Teixeira Couto
      CONTOS

Moça velha

Certo dia, atravessando uma avenida movimentada no centro da cidade, deparei-me com uma mulher aparentemente conhecida.Ela não me viu, mas para confirmar a minha impressão, fiz o caminho de volta mais rapidamente e pude alcançá-la.Assim que me vi diante dela, tive a satisfação de ser reconhecida também.Um abraço caloroso aconteceu entre nós.E a pressa que tínhamos foi momentaneamente esquecida pelo lampejo de um passado que retornou assim, num átimo, em meio ao caos de um trânsito de hora de almoço.Vera também se lembrou de meu nome, para minha felicidade.E com a emoção de quem queria resgatar as lembranças adormecidas, procuramos uma lanchonete por perto para que a conversa pudesse fluir mais tranqüila pelo menos por alguns minutos.Assim que ocupamos uma mesa mais afastada do pequeno Café escolhido ao acaso,pude observar mais atentamente minha cara amiga.Estava bem envelhecida.Pouco lembrava a menina sapeca, depois a jovem assanhada e alegre que era o sonho de desejo de cinco entre cinco garotos de nossa época.Mas quando começamos a falar de nós, a voltar no túnel do tempo relembrando tanta coisa boa que vivemos juntas, pude constatar que algo em Vera permanecia igual: o seu sorriso largo e bonito.Até as covinhas permaneciam, conferindo um resquício de jovialidade ao rosto já ligeiramente enrugado.
Durante esse nosso encontro fiquei mais à escuta.Vera tinha necessidade imensa de falar, sorvia o passado entre um gole e outro de café.A cada lembrança seus olhos brilhavam.E em alguns momentos pude entrever uma lágrima que apontava no canto de um olho, prestes a cair.Quando percebi a emoção à flor da pele tentei mudar de assunto, passei para um outro fato de nossa história em comum que lhe devolveu o sorriso.
Mas o trabalho nos esperava e a nossa conversa teve que ser interrompida.Não sem antes trocarmos endereço, telefone, email e garantirmos um próximo encontro.Isso feito, nos abraçamos saudosamente e cada uma tomou o seu rumo.Enquanto cruzava de volta a mesma avenida que me trouxera o passado, voltei a cabeça na direção do caminho de Vera e pude perceber que ela fizera o mesmo.Era como se as duas, ela e eu, quiséssemos confirmar se aquele encontro, no meio de uma tarde movimentada ,tinha mesmo acontecido.
Uma semana depois do insólito acontecimento, recebi da parte dela um convite para um almoço.Seria num restaurante que freqüentáramos tempos atrás.Pressenti o tom nostálgico que marcaria os momentos que passaríamos juntas.No dia marcado, um domingo, reencontrei uma mulher um pouco mais cuidada, demonstrando um resquício da antiga vaidade.Pois a Vera fora uma mulher muitíssimo vaidosa, principalmente com a pele (muito clara) e os cabelos (naturalmente ruivos).O tom avermelhado de sua cabeleira ainda se destacava em seu rosto.O brilho de suas madeixas somado às sardas dava-lhe um certo frescor, algo de jovialidade ao semblante já marcado pelo tempo.Saudamo-nos carinhosamente, sentamos à mesa reservada com antecedência, pedimos uma cerveja em lata para mim e um refrigerante para ela e demos início à sessão nostalgia . Em meia hora de conversa ,notei que era eu quem mais falva.Quanto muito, Vera ficava na anuência, no hum, hum de quem não sabe o que dizer.Ao perceber minha gafe, tentei inverter o jogo.E perguntei: E aí, Vera.Fale-me um pouco de você.O que tem feito? Está casada? Tem filhos? Como vai a família, o trabalho? Foi aí que o peso dos anos se evidenciou na fisionomia de minha amiga.Perscrutando-lhe o rosto, percebi algo sombrio, algo toldando-lhe o olhar.Nem o brilho dos cabelos avermelhados foi suficiente para enganar a tristeza.Uma lacuna atrás da outra.Silêncio profundo durante alguns minutos que pareceram eternidade.Foi aí que Vera me contou a sua história.Não se casou, não teve filhos, aposentou-se precocemente por meio de um acordo com a empresa em que trabalhava e não voltou ao mercado de trabalho.Nunca saíra de casa.Morou com a família, pais e irmã até recentemente.Fazia pouco tempo que se via totalmente sozinha no mundo.Perdera num pequeno espaço de tempo pai, mãe e a única irmã (casada e sem filhos).Agora estava ali, apenas entregue as suas lembranças, tentando buscar forças para recomeçar.
Depois de ouvir atentamente minha querida amiga, entendi as rugas , o olhar sem vida, os cabelos brancos que insistiam em dominar a linda cor ruiva em suas têmporas.É, a vida não tinha sido fácil para ela.Sua trajetória fora, no mínimo, uma controvérsia do que se delineara no passado.Quis saber de antigos amores, dos namoros às escondidas, de sua paixão por Marcelo.De minha interlocutora só evasivas, ou : Nada foi adiante.Marcelo se casou com Sônia.Lembra dela?
Lembrava.Mas não entendia.Ela fora tão cobiçada, teve tantas oportunidades.Até uma certa inveja ela despertava no grupo das meninas mais bem comportadas (do qual eu fazia parte).
Depois do almoço, ficamos um tempo a mais para atenuar o tom que nossa conversa tinha tomado.Senti o quanto uma amizade sincera pode ajudar nos momentos difíceis e o quanto a minha amiga perdera por ter se isolado de todos, de ter vivido numa redoma.Ainda bem que o acaso havia nos aproximado.Ganhamos nós duas.Sei que a partir de agora, a solidão de Vera será menor.Sei que ela, lentamente tentará fazer o resgate de relações que foram preteridas em nome de outros interesses ou até mesmo de acomodação.Quanto a mim, pude confirmar o que , felizmente, nunca deixei de lado:a amizade é o valor maior da existência.Vale mais do que o amor ou, em outras palavras, é o amor em sua verdadeira essência, uma vez que prescinde do sexo, da posse, da paixão.Sendo assim, é a amizade que nos dita o colorido das coisas, que nos dá sentido de pertinência.
É sempre bom agradecer a Deus pelos bons encontros ou reencontros que vivenciamos.São eles que nos lançam na estrada da vida e nos torna cada vez mais gente de verdade.

Vera hoje está mais sociável, mais alegrinha, mais atuante.A pele clarinha já readquiriu um certo viço e o olhar já não anda tão perdido. Coisa boa, não?

 



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