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   > PAETÊS E PANOS DE PRATO



Ana Flores
      CRôNICAS

PAETÊS E PANOS DE PRATO

Há códigos que se impregnam de tal forma no inconsciente coletivo, que se torna quase impossível nos desgrudarmos deles. Mesmo já não tendo correspondência com a realidade, insistem em se manifestar e, muitas vezes, adeus coerência. Um deles, por exemplo, é a idéia que as telenovelas das 9 (ex-8) insistem em nos passar ano após ano que os personagens do “núcleo dos ricos”, para usar o jargão novelístico, costumam se vestir em trajes de gala mesmo quando estão em casa. Vestidos acetinados, jóias, sandálias de salto, terno-e-gravata e maquiagem carregada são ingredientes indispensáveis a esses personagens, como se estivessem de saída para uma recepção. Que nada, estão calmamente em casa, conversando ou discutindo, mas lá estão os sinais externos para os telespectadores: estes são os ricos, combinado?

Nessas casas também parece não existir cozinha. Fogão, então, nem se fala. No máximo, uma copa, onde a dona da casa, de salto e brilhos, entra para pedir um copinho d´água (não sabe onde fica a geladeira, deve ser por isso) e trocar meia dúzia de palavras com os serviçais. Que, a propósito, têm postura e fala formais, parecendo saídos de um filme de época. Mal sabem esses ricos que uma camisetinha de boa qualidade e uma camisa pólo com jeans bem cortados, e um batonzinho para as mulheres podem fazer toda a diferença, dispensando os adereços exagerados e sem propósito. Rico também usa jeans. Quiçá sandalinha havaiana, cada vez mais fashion.

Já os personagens do “núcleo dos pobres” têm sempre que falar alto, discutir com vizinhos, e aparecem em várias cenas de cozinha ou na porta de casa, geralmente enxugando as mãos num pano de prato. Porque, ao contrário do outro lado, eles mesmos fazem a própria comida e sabem onde ficam fogão e geladeira. Sem contar a tradicional cruzadinha da moça pobre que se apaixona pelo herdeiro do outro núcleo e vice-versa. Mas isso é inerente ao folhetim e a fórmula do amor proibido sempre deu ibope certo, Romeu e Julieta que o digam. Afinal, não se mexe em time que está ganhando, com licença da frase batida.

Exageros à parte, é dessas incoerências que a fantasia coletiva se alimenta diante da TV, quando a mágica de diretores, roteiristas, atores e equipe técnica nos transporta para outras dimensões. Enquanto dura a trama, há torcida, emoção, raiva, riso e tudo a que se tem direito nos 45 minutos diários de escapismo. Mesmo cobertos de paetês ou contando os centavos para pagar contas, os núcleos de ricos e pobres pré-fabricados cumprem sua missão de entreter até quem critica suas sandálias de salto e seus panos de prato.


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