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   > No ônibus ( Retratos I )



Amarilia Teixeira Couto
      CRôNICAS

No ônibus ( Retratos I )

No ônibus  ( Retratos I )

Uma jovem entra no ônibus com um garotinho.Sentam-se bem à minha frente.O menino, de aproximadamente três aninhos de idade, senta-se no lugar indicado pela jovem e ensaia uns arrufos,começa a choramingar.Mas o choro ficou só no ensaio, pois a mãe ( era a mãe do garotinho!) logo aos safanões o faz engolir o pranto nascente,empurrando-o para o canto do assento.Passo a prestar mais atenção à cena.Quando entraram no ônibus pensei que fossem irmãos, ou mesmo tia e sobrinho, tal era a jovialidade da moça.Idade? nada além de dezoito anos.Jeito franzino, mignon, parecia adolescente.O que me chamou a atenção foi a rispidez e, ao mesmo tempo, a falta de cuidado com o menininho.
O ônibus seguia o seu percurso e eu continuava a observar o que ocorria na poltrona da frente.A criança, depois de certo tempo, voltou a chamar a mãe, tentava entabular uma conversa com ela.-Mãe, ó mãe, olha lá , um cachorrinho!
-Cala a boca, menino! E continuava atenta ao seu celular, aliás único foco de sua atenção desde o momento que entrara no ônibus.Esqueci de dizer que,desde que entrou e sentou-se à minha frente, ela não tirara os olhos e os dedos do celular.Seria uma estátua, não fossem os movimentos dos dedos no teclado do aparelhinho e os rosnados direcionados ao filho quando o mesmo a interpelava.
Enquanto observava a cena patética , pensava no que poderia levar uma jovem mãe a uma frieza tão cruel com o filho. E a criança ainda tentou chamar a atenção da mãe algumas vezes.Até,que vencido, colocou seus pezinhos contra o encosto da poltrona da frente e passou a brincar com o cadarço do tênis.Assim ficou por um bom tempo até que o sono chegou e, como qualquer criança, procurou o colo da mãe.Nesse instante, o meu coração se confrangeu.Eu pensei:_ Agora ela vai colocá-lo no colo, fazer uma carícia...Qual nada! Ela ficou impassível, atenta somente ao celular.
De repente, ela levanta a mão e aciona o sinal de parada O garotinho é empurrado bruscamente e acorda sobressaltado.Nenhuma palavra da mãe para o filho.Penso comigo mesma: -Será que ela vai deixar o menininho no ônibus? Será?? Ela levanta, vai em direção à porta e, pasmem! O menininho pula da poltrona, agarra-se à mão da mãe e desce junto com ela.Silêncio total.

Presenciei essa situação já há bastante tempo.Nunca consegui esquecer a cena.Esperava o momento certo de compartilhá-la com um grupo de leitores que sempre me prestigia.É que a ausência total de afeto da mãe com o filho me incomodou sobremaneira.Não que eu viva num mundo de conto de fadas , numa bolha, e desconheça as cruezas da vida, muito pelo contrário.Mas, o que mais me tocara à época, foi a indiferença materna, a troca da atenção do filho pelo celular.E a dura batalha que uma criança tem de enfrentar, desde a mais tenra idade, pela sobrevivência.O choro engolido, o colo negado, o abandono anunciado....Deus meu! São lições duras demais pra quem não pode ainda escolher.
Ainda espichei o olhar para ver os dois que ficaram para trás.Ainda tinha a esperança de vislumbrar um espectro de carinho.Para minha decepção, nada vi.O garotinho agarrara-se à blusa da mãe que seguia a passos largos e tentava acompanhá-la.Engoli a emoção e dei graças a Deus de perdê-los de vista.

 


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