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   > SOBREVIVÊNCIA



SEBASTIO CARNEIRO DA SILVA
      CRôNICAS

SOBREVIVÊNCIA

SOBREVIVÊNCIA
 
Aquela impressão o tornava tão... Ui!
 

“Nossa! Venha cá, Miguel. Rápido, rápido”, alarma-se o Fernando, enquanto põe as orelhas do velho nas pernas, beija-lhe a face e abana-lhe o dorso com um jornal amarelado.
“Que foi, que foi, Fernando? Meu Deus! Não podemos deixá-lo morrer. O que faremos, meu mano?”, diz o Miguel, martirizado com a cena.
Nisso, chegam a Lia, o Tói, o Cascudo e a Lice, os irmãos que se encontravam em casa.
“Vá chamar a mãe, Lia. Pare de choramingar, Tói! E você, Cascudo, vê se apaga esse maldito charuto”, ordena o Fernando, assumindo o comando da situação, já que era o irmão mais velho.
- Mãe tá num congresso, Fernando. Vou chamar a vovó. Ela tá batendo roupa no rio.
- Então vá logo, mulher de Nossa Senhora. Peça que a vovó traga uma meizinha pra ele, viu? Oh, Lice! Não chore, minha irmã. Vá com a Lia, vá!
- Mesinha? Pra que mesinha, Fernando?
“Que mesinha que nada, sinha tonta. Meizinha, chá, remédio caseiro”, esclarece o Cascudo.
Enquanto esperam as mulheres, os irmãos ficam na cabeceira do velho e danam-se a bramir contra os tempos modernos. O Tói se afasta e volta com uma vela no preciso momento em que as netas retornam com a avó:
 - Que é isso, que é isso! Guarde essa vela, Seu Tói. Saiam de perto dele. Não veem que tal comportamento só o deixa mais capiongo? E que é exatamente isso que os magnatas querem. Alegrem-se! Esse velho não vai morrer nunca, meus netinhos. Ainda vai prosear muito. Para um bocado de gente, ele pode até ficar deitado, mas aqueles de sensibilidade haverão de mantê-lo em pé.
Alguém me diz como aconteceu o chilique?
- Ele estava na internet, vó, a ler um relatório numérico, aí...
- Basta, Fernando. Já entendi. O dissimulado está tão somente desempenhando o papel dele. Agora me deixem passar essa misturinha na careta enrugada desse sonso.
A senhora embebe a mistura num chumaço de algodão, começa a passar no rosto do velho, mas se volta para o Miguel:
- Que groló é esse, vozinha?
- É água benta com azeite, meu neto.
O Miguel bolina o queixo, revira os olhos, emprenha a bochecha, começa parindo um risinho, torna-o escandalosamente adulto e, quando se dão conta, todos estão numa risadeira só, conquanto apenas o Miguel soubesse da causa. Ele explica, gaguejando:
- Água meus netinhos, azeite senhora vó!
A risadaria dobra, agora com a adesão do antes moribundo Sr. Livro. Abraçados, o Sr. Livro, D. Literatura e os netos fazem uma dança de roda e tome comemoração:

“Entrou por uma perna de pato e saiu por uma perna de pinto”, repetiam, adoidados.

Foi assim, sim!
 
Tião Carneiro



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