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   > SIMPLESMENTE MULHER



SEBASTIO CARNEIRO DA SILVA
      CRôNICAS

SIMPLESMENTE MULHER

  SIMPLESMENTE MULHER
 
Bezerra ficou olhando os quatros cantos da piscina a fim de ver em qual deles a mulher ia surgir. Dificilmente Bezerra errava o local onde ela aparecia. Tinha o faro muito bom pra essas coisas. Dessa vez Bezerra errou: Minervina saiu exatamente no ponto em que mergulhou. Peguei você, meu caro Bezerra, disse a Minervina, sorrindo. Sorriu, dirigiu-se à mesinha do pé de palmeira, ligou um sonsinho de rádio, beijou o buquê que o marido aninhou-lhe nos seios logo de manhãzinha, pegou uma maçã e, distraidamente, como se longe dali, começou a mordê-la.
Bezerra deu uma coçadinha básica na cabeça, estirou-lhe carinhosamente a língua e ficou a admirá-la. Ainda quis ir lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos. Se quisesse algum papo, ela teria vindo a ele.
O ser humano é muito esquisito, pensava Minervina, referindo-se ao comportamento dela naquele dia, 8 de março, Dia Internacional da Mulher e data de seu aniversário. Todo 8 de março, ela e o marido seguiam o ritual de dormirem até tarde, namorarem como se fosse o último namoro, deixarem enlouquecidas as libidos, desafiarem certos dogmas físicos. Depois, isolavam-se na piscina, onde brincavam de tica, ficavam a beliscar petiscos, deleitavam-se com músicas clássicas, dançavam. Curtiam-se, enfim.
Mas que é uma esquisitice boa, ah, isso é, sorriu a Minervina. Sorriu e chorou com a mensagem de aniversário pregada nas flores:
Pessoas nobres recebem, em dias de aniversário, auras cósmicas que as iluminam. Simultaneamente, porém, repassam essa irradiação divina aos amigos que delas se aconchegam.
Porque aconchegado já sou, sinto a cada segundo o resplendor dessa dádiva.
Parabéns, Maria. Pelo aniversário e pelo seu dia que é todo seu.
Do todo seu e somente seu.
Minervina queria ter palavras para falar de seu amor pelo marido. Queria escrevê-las, pois a palavra dita pode ser esquecida, embora não volte. Mas inexistiam palavras que fizessem linha direta com o coração. Amo-o a mais do que tudo na vida diziam apenas o óbvio. E se de alguma coisa Minervina fugia era da obviedade. Não somente ela, mas também o marido. Dez anos juntos, e segundo os exemplos que presenciava nos casais amigos, o óbvio era a ardência amorosa ir se amornando. Neles, não: os 45 anos de cada um e os 18 de casados constituíam o zero da prova dos noves da felicidade. Felicidade que provinha da mouquidão como a Minervina escutava algumas amigas: “Os homens são todos iguais. São águias, cachorros e galinhas, Minervina”, diziam elas. Minervina ria, não alimentava o papo e punha água fria na fervura da generalização.
“Do seu, somente seu” fez a Minervina gargalhar, alimentar-se da maçã, espreguiçar-se e mergulhar na morna água da piscina.
Bezerra viu apenas o vulto caminhando para a piscina. Tremenda gazela, falou pra si, depois de outra coçada na cabeça. Ah se eu soubesse escrever. Transformar-me-ia em águia da comunicação, buscaria palavras no fundo do coração e diria a Minervina, com letras maiúsculas, que a amava, que a venerava, que a idolatrava. Que nunca faria cachorrada com ela, que galinhagem não constava de meu dicionário, que seria capaz de por ela morrer.
Minervina fazia mais do que alimentar o Bezerra com palavras afetuosas. O que deixava o Bezerra extremamente alegre eram os angelicais sorrisos dos olhos dela, a meiguice daquele som labial, o zelo como era tratado. Nada lhe faltava. Parecia que a Minervina adivinhava os mais secretos pensamentos dele. A maciez das mãos em seu corpo, então! Tinha por ela uma fidelidade canina, via-lhe a verdadeira dona de seu corpo. Ainda que, não poderia mentir, ficasse um tanto chateado com o sentimento de exclusividade amorosa que a Minervina pensava ter sobre ele.
Ela confundia fidelidade com exclusividade. Ele era amigo, fiel e exclusivo no instante em que estava dando atenção à pessoa, mas os mesmos sentimentos passavam para o outro indivíduo tão logo a atenção mudasse de foco. E isso ela não entendia, mesmo que assim agisse.
Agora, sim, ela saíra no lugar imaginado pelo Bezerra: precisamente no local onde ele estava.
Minervina sentou-se ao lado do Bezerra, ficou alisando o focinho dele, abriu a boca pensando em falar alguma coisa, mas um barulho fez os dois desviarem a atenção para a direção do som.
“Meu gatão”, disse a Minervina, pondo o Felipe, o gato da casa, o culpado pelo barulho, sobre a toalha que lhe cobria as coxas.
Bezerra assistiu à cena, mostrou-se impassível, mas ficou rosnando de ciúme e reavaliando seu conceito de exclusividade. Gostava do Felipe, às vezes até brincavam juntos, mas a histórica rixa entre gato e cachorro se mantinha.
Foi assim que o Euclides, o marido da Minervina, encontrou os três quando chegou do mercadinho:
“Mais uma rosa pra você, amor, um biscoitinho de peixe para o Felipe e uma ração novinha pro meu caro Bezerra”.
Servidos - de ração e de amor - os quatro passaram o resto do dia a confabular. Cada um a seu modo, evidentemente.
 
Até mais ver,
Tião Carneiro
 
Em tempo: Minervina nasceu em 8 de março de 1916 e faleceu em 21 de novembro de 2009. Euclides Carneiro, luciduzinho da silva, completa 97 anos agora em agosto. Tião Carneiro, esse...
 



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