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   > E o Feitosa, hein!



SEBASTIO CARNEIRO DA SILVA
      CRôNICAS

E o Feitosa, hein!

E o Feitosa, hein!
 
Estou ficando pirado, gente. Vinha meio desconfiado, mas acabo de ter a certeza. Vou lhes falar da piração. Lá na frente eu escancaro a certeza.
Tenho trabalhado em casa nos últimos dias. Passo as manhãs entre murros e abraços com os informáticos amigos Excel e afins. Quando me bate o cansaço, eu tibungo numa rede. Foi desse tibungar, ou mais apropriadamente dos atos antecedentes desse prazeroso mergulho, que diagnostiquei a doidice. Visualizem este cenário. De bermuda, cigarro no bico, com camisa ou sem camisa, faço minhas tarefas na área, acomodado ou não numa cadeira, na minha frente uma mesinha de rodas, o computar em cima; aos pés meu amigo Channe, aqui, acolá me “azunhando”; no jardim dois ou três bem-te-vis afirmando que me querem bem ou me viram noutro local; às costas uma tipoia, por vezes branca, por vezes azul, mas sempre me convidando pro aconchego.
Pois bem, se as tecladas no computador forem de trabalho, sento-me na cadeira; se as espetadas forem de distração, acomodo-me na rede. Agora vem o mais grave, precisamente a questão da camisa. Nas dedadas de prazer, como agora, fico sem camisa. Nas porradas com o excel, um de meus companheiros de labuta, fico todo abotoado. Acho, nobres colegas, tremenda desconsideração com a cidadania fazer um auto de infração nu da cintura pra cima. Naturalmente que seria eu o descortês, visto um auto de infração nunca ficar nu da cintura pra cima, não é certo? Talvez meu comportamento nem merecesse uma camisa de força, mas que estava passando de raspão na loucura, ah, isso estava. Concordam comigo?
Como falei no início, a certeza da birutice veio hoje. O Word, pessoal, deixou tudo em pratos limpos. Falo do Word e da birutice já, já. Como aperitivo, posso lhes antecipar que o danadinho do Word pensa que sou boiola e torcedor do Corinthians. Antes, deixem-me relatar mais um episódio de demência.
É o seguinte. No próximo setembro, ganho o direito de me aposentar. Então pensei: daqui pra setembro são 24 quinzenas. Como despedida, vou escrever uma besteira por quinzena e enviá-la aos colegas. Um texto pichototinho, somente assim o amigo Jânio o lerá. É, colega, caso queira o Jânio como leitor, seu escrito não poderá ultrapassar 1.369 palavras.
Escreverei a tolice de estreia hoje, domingo, nove do dez do onze, continuei pensando. Mas sobre o que escreveria? Matutei, matutei e decidi ir ao MPBar. Tomaria umas lapadas, assistiria ao Flu/Fla e, de quebra, colheria material para as literárias tolices. Não há, gente, insumo mais energético para o escrevinhador do que conversas de barzinho. Conversas de quem está bebendo, é claro. Santo remédio para a feiura, bálsamo para a inibição, vacina para a avareza, a bebida, os abstêmios que me perdoem, é fundamental para a abertura de certas portas. Mal cheguei ao barzinho, fui logo encontrando o tema do primeiro escrito. Falaria da emoção do torcedor, tal era o semblante de algumas pessoas.
Pois então, com três uísques no quengo, mas mais ou menos sóbrio, vi-me sendo abraçado por lindíssima moça, ela com umas quatro na cachola e mais ou menos bêbada:
“Grande, Tião, como está você, hein? Há quanto tempo, rapaz! E a turma? Tem visto a turma? Soubesse do Feitosa? Cara, aquele Feitosa! Soubesse mesmo o que o Feitosa aprontou? Hein! Hein!”, exigia o retorno a cordial amiga, beliscando-me.
E agora? Quem diabo é Feitosa, meu Deus do céu! A moça dava-me leve lembrança de alguém da faculdade, de trinta anos atrás. Mas naquele tempo ela era feia pra burro. Como está tão bonita e jovem? Caramba! Mas o Feitosa... Não tinha Feitosa na turma. Ou tinha? O que teria aprontado o Feitosa! Vasculhava a mente a procura do nome da mocinha e da fisionomia do tal Feitosa e nada. Enquanto isso, ela me cutucava e repetia: “Hein! Hein!”. Restou-me apenas ser educado:
“Oi, como está você, mulher de Nossa Senhora? Linda como sempre, hein!”. Repeti o hein dela e fiquei me comprazendo com o sorriso de agradecimento. “Aquele Feitosa é fogo, não é, princesa?”.
A carinhosa não teve tempo de falar. Parou um carrão e a chamaram de lá. Ela passou uns dois minutos conversando, voltou, deu-me outro abraço, disse que ia embora e pediu o número de meu celular. Ainda me acenou do carro, o que me levou ao cumprimento final: “Dê um abraço no Feitosa, tá?”.
Estou ficando lesado mesmo, pensei, pagando a conta e indo pra casa a fim de escrever sobre a emoção do torcedor. Quando saí do bar estava dois a um pro Flu. Depois... Depois... É melhor esquecermos o assunto, não?
Agora sim vou lhes dar a prova incontestável de minha alienação. Cheguei em casa, puxei a mesinha de roda, botei o notbook em cima, estirei a preguiçosa, tirei a camisa, abri o Word, digitei a frase que abriu esta prosa, e o bicho começou a me sacanear.
Por favor, releiam a frase de abertura desta brincadeira, a “Estou ficando pirado, gente”. Pois não é que escrevi essa oração 15 vezes, imaginando-me analfa, pelo fato de o Word ficar me corrigindo? Terminava de escrevê-la, e o Word dizia que a oração não concordava comigo. O correto, na visão do depravado, seria “Estou ficando pirada, gente”. Pode um negócio desse? Fulo da vida, falei assim: “Já que é especialista em letras, por que você não vai TNC? Foi! Falei, sim. O nojento estirou-me o dedão e rebateu: “E você por que não vai pra PQP?”. Aí peguei ar. Empurrei a mesinha, desci da rede, trocamos tabefes, disse que veado ou pirada era ele, dei-lhe um cascudo e mandei-o ignorar a sem-vergonhice”.
Outra coisinha. Quando digito Tião, o vira-lata começa a me dizer, azucrinando-me sem parar, que o certo é tição ou timão. Timão é você, cara. Sou palmeirense roxo, meu! Isso é doideira completa ou não é, meus nobres?
Permitam-me agora dois dedinhos de digressão. É que certa vez flagrei uma pessoa falando de mim, ou de meus textos, tanto faz, acho. Essa pessoa – amiga - dizia à amiga que eu era meio aluado, um inocente metido, sem desconfiômetro, pois ficava escrevendo essas prosas bestas, mandando-as para um bocado de gente, certo de que estava abafando, e que eu já estava por merecer o Nobel da Presunção. “Tenho pena dele”, estava dizendo essa pessoa, mudando para “conheço a sapiência dele”, ao pressentir, pelo canto do olho, que eu ouvira a conversa.
É lógico que aquela inconfidência saiu pelo ouvido que entrou. Não dei bolas. Acabei de afirmar que sou aluado, portanto aceito o rótulo de excêntrico, não o de metido. Que as prosas são bestas, estou sempre lembrando, daí acato a pecha de inocente útil, não a de sonso presunçoso.
Sucede que escrever é uma forma de expulsar os muitos “mins” que convivem conosco. Daí a excentricidade ou a inocência. Não somos só um, tampouco somos somente o que pensamos. Ou, pra ser mais preciso, não somos exclusivamente o que estamos pensando agora. Ou você não nunca mudou de ideia a respeito de algo? Somente o Deus de cada um, o Deus mental, ou o Deus religioso, depende de suas convicções, sabe de que você será capaz. Só sabemos verdadeiramente de determinada coisa quando somos capazes de botá-la no papel. A realidade tornou-se realidade tão somente por conta da escrita e de nossa memória.  Antes ela era pura ficção. E a literatura abarca tudo isso, porque unicamente a ela foi dada a primazia de transitar pelos dois universos. O real, ficcionista para alguns, e o ficcionista, real para outros.
Este textinho, por exemplo. Tudo aqui é real? Tudo é ficcional? Coexistem os dois planos? É possível, caso não coexistam? É de carne e osso a amiga que quer me dar o Nobel de arrogância literária? Estaria eu testando você, doido por uma rebate de afirmação? É claro que você desconhece as respostas, não é verdade?  E é lógico que isso não é problema. Agora as respostas de seus múltiplos “mins” você as têm. E é isso o que conta.
O problema ocorre quando as pessoas não distinguem em qual universo estão vivendo. Real ou ficção? Tornam-se alienadas se viverem apenas no real. Transformam-se em deslumbradas se apenas de sonhos viverem. Aí é bronca.
Bom, estava contando as palavras a fim de não exceder o limite do Jânio, aí o celular tocou:
“Oi, Tião. É a Fifi. O Feitosa te ligou?”.
 
Até outro dia e um abraço,
Tião


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