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Marlos Mello
      ARTIGOS

PSICANÁLISE MIDIADA


PSICANÁLISE MIDIADA

Por Marlos Mello

 

Ao se contemplar o cenário psicanalítico brasileiro, nota-se uma série de mudanças e transformações ocorridas de maneira ágil e intensa, tanto no que se refere a influencia na educação, como também pelo perigo da banalização de conceitos psicanalíticos. Esse fenômeno pode ser chamado de: Democratização do Divã[1]. Nos últimos anos, há uma realidade social em que se pode reconhecer um crescente interesse, presente há pelo menos duas décadas, dos meios de comunicação em incluir o pensamento psicanalítico entre as novas "ferramentas" usadas para interpretar e analisar fatos cotidianos e comportamentos de uma maneira geral.

Neste breve texto não entraremos no mérito do significado da psicanálise no contexto educativo-midiático. No entanto, a questão é posta com clareza quando registramos que também há, em algum nível, a preocupação da mídia em divulgar e ajudar a construir novas tentativas de padronizar, através da psicanálise, regras ou normas de comportamento que possam servir de referência em um contexto social caracterizado pela grande velocidade de transformação nas esferas éticas e morais.

Vigora, sob alguns aspectos, uma ideia de que tudo pode ser respondido pelos psicanalistas. Essa é considerada uma força de atração que a psicanálise exerce sobre parte do grande público. De fato, a psicanálise é um dos fenômenos mais atraentes da cultura moderna, e isto porque todos nós queremos uma vida intensa, ou seja, “a desordem não se administra. É a partir dela que se torna possível uma dialética” Mannoni (1977 p. 15).

Quando o mundo mudava devagar, olhar para o futuro era uma arte mística, envolta em segredos, extraída de entranhas, e quase sempre incorreta. Mas hoje o mundo está mudando muito rapidamente e com tudo isso começa a surgir no âmbito da psicanálise a preocupação em conseguir escapar da armadilha que impõe de um lado a valorização e a defesa da necessidade da presença da psicanálise (e por decorrência dos psicanalistas) na mídia, e por outro lado, a recusa intransigente e reprovadora com relação à presença da psicanálise na mídia.

Os críticos desta presença argumentam sempre na linha das distorções de imagem e conteúdo realizadas pelos meios de comunicação. Para eles a psicanálise precisa ser preservada da vulgarização e indissociável superficialidade que caracteriza os produtos divulgados pela mídia. Os que defendem a presença da psicanálise nos meios de comunicação argumentam em defesa da divulgação de um conhecimento que pode beneficiar milhões de pessoas por um meio muito mais “democrático” do que os consultórios ou os livros, principalmente em um país com as características econômicas do Brasil. Exemplo desse argumento é o do Psicanalista Flávio Gikovate, que interpretou a si mesmo na novela Passione da Rede Globo, e diz:

Nunca pensei nas atividades de divulgação como algo que viesse a consolidar minha carreira. Sempre achei que é dever das pessoas que têm acesso a algum tipo de conhecimento compartilhá-lo com o maior número possível de pessoas. Sempre me insurgi contra qualquer modelo de elitismo intelectual, de modo que sempre me propus a escrever e falar de modo claro, tentando transmitir o que aprendi. (Entrevista de F. Gikovate a revista Veja do dia 11/09/2010).

Há aqui, também, a já clássica discussão sobre a validade ou não da chamada "psicanálise aplicada", ou seja, o conhecimento psicanalítico sendo utilizado em outro contexto que não a prática clínica. No meio de todo este debate, cabe não esquecer, entretanto, que a psicanálise não se expressa por si mesma, mas sempre através de indivíduos, que podem ou não pertencer ou possuir cargos em instituições psicanalíticas reconhecidas. Ou seja, para além das especificidades do conhecimento psicanalítico, deste ser ou não compatível com as características atuais dos meios de comunicação, existe a situação, as contingências e os desejos de cada indivíduo que fala em nome da psicanálise.

Assim, creio que neste momento cabe um outro tipo de questão: como não se fascinar com os apelos da mídia? Há promessa de visibilidade (elemento sem dúvida fundamental para a constituição narcísica de nós humanos), e, quem sabe, a promessa de reconhecimento (de um público amplo, mas não menos importante, reconhecimento entre seus próprios pares). Mas, não se pode esquecer, há também a oferta de que a presença na mídia terá como efeito a transmissão, para um público mais amplo, de idéias e informações que, em geral, estão restritas a um público muito menor. Neste sentido, é um ato de cidadania, louvável. Portanto, apelo fascinante, mas nem por isso razão para uma recusa imediata. Não basta se refugiar na postura cômoda de que a Psicanálise é uma ética e ética e mídia não combinam.

Vale lembrar que durante uma certa época, havia na comunidade de psicanalistas uma clara resistência em aceitar os assim chamados "convites" da mídia. Os que aceitavam eram mal vistos. Duas oposições centrais norteavam este campo e os julgamentos realizados: aquela entre "Vaidade e Abstinência" e a outra entre "Charlatanismo e Seriedade". A respeito desse assunto F. Gikovate responde:

A vaidade é parte da nossa sexualidade e está presente em todos nós. Com os anos tenho me acostumado a ser uma pessoa conhecida e reconhecida em muitos dos ambientes por onde circulo. Não sinto prazer especial nisso e jamais me senti desconfortável por ser pessoa que passa despercebida ao caminhar, por exemplo, pelas ruas de Nova York. Tenho minha vaidade, mas ela está mais que tudo direcionada para minha produção intelectual. (Entrevista de F. Gikovate a revista Veja do dia 11/09/2010).

No Brasil, a década de sessenta foi marcada pelo acirramento destas oposições e foi a década que viu aparecer novos personagens para a mídia, já que o comportamento humano privado (e não mais só público), seus padrões e alternativas, passou a ser notícia. Das colunas sobre comportamento nas revistas femininas (não necessariamente ocupadas por analistas, mas muito apoiadas, em seu conteúdo, em alguma forma de diluição das idéias da Psicanálise) ao programa "Jovem Urgente" comandado por Paulo Gaudêncio (que na década de setenta ainda iria fazer na antiga T.V. Tupi uma simulação de grupo-terapêutico com atores no lugar de pacientes), o Brasil, algum tempo depois dos Estados Unidos, pôde assistir ao aparecimento deste novo personagem na mídia, o "analista de plantão".

O público e o Privado x o real e a ficção

Por conta da participação de Gikovate na novela, um jornal levantou a polêmica de que o psicanalista estaria infringindo o Código de Ética Médica, que proíbe consultar, diagnosticar ou prescrever medicamentos em qualquer meio de comunicação de massa. A Associação Brasileira de Psiquiatria afirmou que não há registro na instituição de nenhuma queixa contra Flávio Gikovate. O órgão ainda declarou que, diferentemente do que já foi publicado, a participação do médico na TV não é pauta da diretoria da associação. A assessoria de imprensa do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) também disse que não há nenhuma queixa contra o médico no conselho, mas admitiu que as cenas do médico no folhetim estão sendo avaliadas pelo órgão para saber se, em algum momento, poderiam infringir o Código de Ética Médica. O autor de Passione, Silvio de Abreu, afirmou que a participação de Gikovate trouxe credibilidade a um problema de ficção e saiu em defesa do médico: “Dr. Flávio não está infringindo nenhum Código de Ética Médica. Ele está fazendo terapia em um personagem de ficção e não em um paciente real. Como sempre, a vontade de criar o fato é que faz toda a confusão”. Entrevista ao portal R7 em 12/11/2010.

Sabe-se, que já com Freud, a Psicanálise tinha saído de seu confinamento nos consultórios, para começar a ocupar seu lugar, de forma mais ampla, como um pensamento da cultura, sobre a cultura. Se o próprio Freud negava que a Psicanálise pudesse ser uma filosofia, ou uma Weltanschaung, ele mesmo "aplicou" as idéias psicanalíticas a outros fenômenos que não só a neurose de seus pacientes. E assim realizou artigos para revistas não especializadas, aceitou dar entrevistas e procurou discutir temas sociais e culturais. Mas a oposição entre uma Psicanálise "pura" (a praticada nos consultórios, onde estão resguardadas todas as falas) e outra "aplicada", e por isso não tão pura, sempre acompanhou o desenvolvimento da Psicanálise. Para entendermos melhor esta oposição entre "pura" e "aplicada" e a própria relação entre Mídia e Psicanálise, talvez seja útil analisar uma outra oposição, a que se constituiu entre as esferas públicas e privadas da subjetividade.

Assim, a Psicanálise, inserida como atividade clínica em um espaço público, constrói sua especificidade no âmbito restrito de experiências privadas. A situação de análise pode ser vivida como um certo refúgio da realidade externa, dos confrontos cotidianos, um lugar seguro, de repouso, muitas vezes sentido como mais seguro que a própria casa. Os analistas tendem a "vender" este espaço como um lugar privilegiado, especial, reservado e protegido, um horário e um espaço onde o paciente é centro de todas as atenções.

E por parte dos profissionais, como é vivida esta experiência de ver sua imagem reproduzida pela mídia? Será que nós analistas, psicólogos e psiquiatras, quando nos colocamos no pólo oposto da vaidade ou do charlatanismo dos "gurus de televisão", que em seu extremo pode ser reconhecido como um pólo fóbico, temos medo da mídia, de nossa "representação" na mídia, como se esta tecnologia de produção de imagens tivesse o efeito de roubar nossa alma? 

O argumento é, muitas vezes, o de que a mídia distorce, retira palavras do contexto, edita e faz o que bem entende em nome de um texto de apelo jornalístico ou de uma imagem que acompanhe corretamente a pauta, a intenção de um programa televisivo. E isto de fato acontece. Mas existe, por outro lado, a possibilidade de uma representação fiel? Ou a imagem vai estar sempre "aquém" de nosso desejo narcísico? Qual o perigo da imagem? Qual o medo da imagem? A mídia constrói e destrói imagens? Em que nível? Com que consequências?

Não cabe aqui e foge a nossa competência estabelecer os termos de uma convergência entre psicanálise e mídia. Entretanto, acreditamos estar contribuindo com essa discussão porque a psicanálise é uma prática e um saber voltados para a compreensão dos movimentos e conflitos cotidianos das imagens que construímos de nós mesmos, nenhuma delas verdadeiramente real ou apenas fantasiosas. A imagem não é o "vilão" que oculta um verdadeiro conteúdo. A imagem não é ilusão. Mas também não é causa de desilusões. Enfim, o problema esta colocado sobre a mesa. Agora é preciso o diálogo.

Concluímos este artigo com as palavras do Psicanalista Flávio Gikovate a respeito de sua participação nos meios de comunicação:

Acredito que tudo o que faço no rádio, nos meus livros, nos programas de TV de que participo pode ajudar as pessoas a pensar um pouco mais em si mesmas, e a iniciar um processo de autocrítica que pode ser muito criativo e útil. Numa época em que todo mundo só tem se preocupado com a aparência física, vale a pena qualquer iniciativa que lembre a elas que é importante também se preocupar com a subjetividade. Minha única pretensão é ajudar as pessoas a pensar que dentro da nossa casca existe um miolo. (Entrevista de F. Gikovate a revista Veja do dia 11/09/2010).

[1] Segundo Paulo Gaudêncio, a maioria das pessoas vive em permanente busca de um ajustamento saudável em suas relações pessoais, familiares, sociais e profissionais. Esse processo, para ser bem-sucedido, exige autoconhecimento, uso maduro das emoções, capacidade para lidar com os próprios conflitos e flexibilidade nos papéis desempenhados, isso só ocorre com a democratização do Divã. (site do Instituto Paulo Gaudêncio, 2010).

BIBLIOGRAFIA

CERQUEIRA FILHO, Gisálio (ORG.) (1982) Crise da Psicanálise, Rio de Janeiro : Graal .

COELHO JUNIOR, Nelson Ernesto. A Imagem da imagem – Questões sobre as relações entre Psicanálise e Mídia. In XXVII Congresso Interamericano de Psicologia, Caracas, Venezuela 27 de junho a 2 de julho, 1999.

GAUDÊNCIO, Paulo. Instituto Paulo Gaudêncio, disponível em acessado em 5/12/2010.

MAUD, Mannoni. A educação impossível. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1977 (Prefácio p. 11-20 e cap. 2 e 3 p. 61-106).

QUINDERÉ, Mário. Reflexões sobre Jornalismo, Poder e Democracia: Afinal para que serve o Jornalista? Trabalho apresentado no VII Encontro dos Núcleos de Pesquisa em Comunicação – NP de Jornalismo, Santos/SP, 29 de agosto a 2 de setembro de 2007.

ROCHA, Heitor Costa Lima da. Habermas e a Teoria do Jornalismo: A Manipulação

Ideológica no Jornalismo como Distorção Sistemática da Comunicação. Estudos em Comunicação n° 4, 41-57, Pernambuco, novembro de 2008.

VEJA, Revista, Flavio Gikovate, o "terapeuta" de Antony em Passione, disponível em acessado em 5/12/2010.



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