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   > Alvíssaras meu capitão, Meu capitão-general!



Vicência Jaguaribe
      CRôNICAS

Alvíssaras meu capitão, Meu capitão-general!



 
(Vicência Jaguaribe)
 
 
 
            Faz muito, muito tempo. Tanto tempo, que as protagonistas do episódio já têm entre oitenta e sete e noventa anos. Mas ainda estão lúcidas e bem dispostas – menos a mais velha, que anda meio adoentada, depois de cair enquanto podava as plantas de seu jardim.
            Faz, então, muito tempo. Em uma pequena cidade do interior do Ceará, lá onde o vento – não, vento, não, que lá não venta; estamos falando de um local que é a quintessência do calor – lá onde o calor e o mormaço fazem a curva, quase no tempo em que D. João VI era cadete, morava uma família comum, com pai, mãe e seis filhos. Mas, um momento... pensando bem, não podia ser tão comum assim, porque a mãe era uma das poucas professoras formadas da cidade, de modo que aquelas crianças recebiam influências culturais que as outras crianças daquela cidadezinha desconheciam.
As três mais velhas eram muito próximas na idade e costumavam brincar juntas. Tinham bruxas feitas totalmente de pano e bonecas com rosto de massa e corpo de pano. Antes de adiantar essa história, é preciso lembrar que as três eram donas de temperamentos muito diferentes. A mais velha tinha cara e jeito de adulta; a segunda era calma e dócil. A terceira, porém, era viva, esperta, audaz e, como talvez dissesse minha mãe, parecia ter pauta com o capeta.
Não era com as irmãs que ela disputava carreira ou apostava para saber quem subia mais alto no pé de cajarana. Não, porque com as irmãs não tinha graça, ela sempre ganhava. Concorria com o irmão e, às vezes, até ganhava dele. Como ela ainda se lembra, ao chegar ao galho mais alto da cajaraneira – ao mais alto que aguentava seu peso (também ela não pesava quase nada, pois era magrinha e baixinha) –, escanchava-se e imaginava-se em um navio. De seu posto de observação, ela era um gajeiro, que divisava não os quintais dos vizinhos, mas o mar-oceano e, além de suas águas, terras de Espanha e areias de Portugal. E recitava bem alto, aqueles versos da Nau Catarineta, que provavelmente lera em um dos livros da mãe professora:
 
Alvíssaras meu capitão,
Meu capitão-general!
Que avistei terras de Espanha,
Otolina.
Areias de Portugal!
 
            Mas essa menina também tinha seus momentos mais doces, quando brincava de casinha com as irmãs. As caixas dos sapatos e as das bonecas, que elas arrumavam ao longo do corredor, faziam as vezes das casas em que moravam as bruxas de pano e as bonequinhas de rosto de massa. E era tudo perfeito naquela terra do faz de conta. Elas gostavam de brincar à noite, porque o dia reservavam para as reinações, principalmente a menina do meio, que se fazia de gajeiro, no navio da fantasia.
            Acontece que, na maioria das noites, brincavam à luz e à fuligem das lamparinas. A mãe acendia três lamparinas – uma para cada menina – e elas se deixavam levar pelo mundo do faz de conta, até onde a imaginação as deixasse caminhar. Nesse dia, no meio da brincadeira, a irmã do meio pegou a bonequinha da irmã mais nova para levá-la a almoçar na casa de sua própria boneca – era assim que elas exercitavam as normas da vida em sociedade. Sucedeu, infelizmente, que a menina passou perto demais da lamparina. Que desastre! Que pena! A bonequinha ficou toda chamuscada, e a massa que fazia o seu rostinho escorreu, deformando-lhe as gentis feições.
            A dona da boneca teve pena, teve raiva, teve desgosto... e teve outros sentimentos mais, que não convém recordar. Mas teve, principalmente, vontade de se vingar da irmã. Ficou calada e aguardou uma boa oportunidade.
            Alguns dias depois, quando todos pensavam que a menina esquecera o triste episódio – menos a mãe, que mãe não se engana quando se trata de reconhecer o que um filho está sentindo –, eis que surge o momento ideal para a desforra. Ela vai à prateleira de cima da torneira – como já disse uma vez, parente distante do guarda-roupa – e, com muita cautela, para não se denunciar antes da hora, puxa a caixa onde a irmã guardara a bonequinha. Retira-a da embalagem, põe-na no chão e... adivinhem! Não, não pulou em cima dela. Muitos menos sujou-a de graxa. Menos ainda rasgou seu corpinho de pano ou quebrou seu rostinho de massa. Ela arriou as calcinhas e fez xixi sobre ela. E foi dormir, tranquila, satisfeita e desforrada.
            No dia seguinte, quando encontraram a bonequinha, seu corpo de pano absorvera todo o xixi, e suas feições se desmanchavam. Alguém teve dúvida sobre a autoria de tão selvagem atitude? Claro que não! Estava clara, ali, uma manifestação da pena de talião: Olho por olho, dente por dente – no caso, rosto por rosto, corpo por corpo. A mãe ainda correu atrás da capetinha para aplicar-lhe umas boas palmadas, mas, como sempre, asmática que era, acabou perdendo-a de vista. Quando ela apareceu, muitas horas depois, a raiva já havia passado, e a mãe, coitada!, deixou por isso mesmo. E a dona da boneca? A dona da boneca era exatamente aquela irmã que não se impunha, que aceitava tudo sem nenhuma reação. Aquela que só fazia chorar nos momentos de dificuldade.



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