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   > PERFORMANCE POÉTICA



Izabel da Rosa Correa
      CRôNICAS

PERFORMANCE POÉTICA

Meus poemas expostos em cartazes cor de mostarda e azul marinho. Cores alternadas. Fixos em letras negras. Rostos desfilam diante dos pôsteres mudos. Agora não há dissonância. Não há entraves ao entendimento. Versos inteiros sendo analisados. Através de lentes, lupas. Neurônios pesquisando cada palavra. Revendo a ortografia das frases. Analisando-lhes a semântica. Quedo-me em sorrisos. Flashes buscando o meu melhor ângulo. Desvio o olhar dos leitores ávidos. Devoram minhas angústias. Deglutem minhas carências. Observam meus medos mais íntimos. Devassam o altar da minha intimidade. Resvalam em armadilhas colocadas para encaminha-los a veredas falsas. De relance, vejo um cenho franzido a discordar de uma idéia torta. Um sorriso de assentimento em um parágrafo ingênuo. Ou terá sido um olhar sardônico sobre uma palavra imprudente? Há uma dança. Um valsar incongruente no salão. Estou ocupadíssima em dar atenção a um e outro visitante desgarrado dos textos. Tento distraí-lo, com conversa, salgadinho. Quem sabe esta maravilha coberta de chocolate? Consigo meu intento por poucos minutos. Sou interrompido por outro leitor que exige minha concentração. O primeiro desertor retorna ao campo e trava batalhas ferozes com minhas construções loquazes. Tremem os lábios na conversa tola. Arremato uma afirmação sem sentido. Balanço a cabeça concordando com qualquer exposição. Não refuto, não oponho objeções. Nesse momento, interior despojado e aberto, sou alvo fácil. Não há como oferecer resistência.

Um a um eles se cansam. Desistem dos verbos, desamparam versos. Afastam os olhos dos painéis mostarda. Abandonam as molduras cor de mar. Deleitam e mantém a boca ocupada com amêndoas e patês. Estalam nos dentes torradas e confeitos. Mantém o olhar fixo. Retido em alguma imagem turva retirada das dobras do meu inconsciente. Tento adivinhar o qual figura povoa as mentes deglutidoras de doces. O mastigar cadenciado discorda de qual afirmativa, desconstrói qual legitimação? Salivam e meditam sobre qual dúvida existencial? Quem captou qual sentimento? Qual deles deturpou a minha idéia exposta? Não encontro eco. Abraços de despedida. Parabéns ardorosos. Desconfio da sinceridade de alguns. De outros duvido do entusiasmo. Finalmente suspeito de elogios ditos clara e abertamente. Noutras vezes, desarmada, recebo o calor da exaltação e me creio poeta. Desvirginada. Entregue ao mundo como uma debutante devassa. Respiro. Olho a sala vazia. Meus poemas pendentes nos cartazes. Vítimas e algozes. Receberam críticas mordazes de alguns. Noutros fixaram cravos no peito. Alongo o olhar. Os pratos quase vazios. O eco dos passos, das vozes, dos flashes. Repito o final de um dos meus poemas favoritos.


“A brisa leva
o meu poema liberto.


Alguém reconhecerá
a dor que agora é verso?
Onde flutuará a cinza
do ser que um dia fui eu?”


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