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   > A MULHER-HOMEM



Airo Zamoner
      CRôNICAS

A MULHER-HOMEM

– Daqui a pouco ela deve chegar – diziam os marmanjos ouriçados com o acontecimento.

Londrina era ainda uma pequena cidade, crescendo desmesuradamente. Os fornecedores vinham sempre de outros centros maiores. Era assim com bebidas. O caminhão chegava carregado de engradados de madeira. As garrafas, sempre de vidro. O plástico não fora inventado ainda. Não sei quanto pesava uma caixa daquelas, mas dava para sentir o peso quando os homens as colocavam sobre os ombros que se ampliavam com o braço imitando mão francesa.

– Olha lá. O caminhão chegou. Ela deve ter vindo junto. – cochichavam os inconvenientes.

Minha curiosidade impúbere se aguçava.

– Quem é ela? – perguntei titubeante a meu pai que desconversou.

O motorista saiu da boléia e começou a retirar a pesada lona. Alguém do outro lado fazia o mesmo e eu não podia ver quem era.

– É ela – alguém escancarou – Ela veio com ele.

Imaginei que do outro lado estava a tal mulher, esperada mulher, cabelos longos, loiros talvez, olhos sorridentes, vestido vaporoso, lindas pernas, busto provocante. Mas como era possível ela estar fazendo um trabalho destes?

– Quem é ela? – repeti pra mim mesmo.

– A mulher-homem! – sussurraram com risinhos estúpidos.

E então ela apareceu. Carregava nos ombros os primeiros engradados. Vestia calças compridas. Calças de homem, pois naquele tempo todas as mulheres só usavam vestidos, saias. Jamais calças compridas. Tinha músculos fortes, salientes, aflorando pela camisa emprestada e carregava nos ombros aquele peso descomunal. Cabelos curtinhos, pouco femininos. Olhos tristes, sorriso amarrado, preso, detido eternamente, condenado por algum tribunal injusto. Impedido de aflorar ambiente afora, excitando homens desprevenidos. Expressão fechada, amargurada, sofrida. Tudo isto eu vi enquanto ela passava por mim, muito perto. De cima de meus oito anos baixei os olhos e vi seus sapatos masculinos, grandes demais para pés que imaginei delicados. Ergui os olhos, procurando a imagem feminina que fantasiara há pouco. Ou não havia, ou tudo se escondera penosamente na vestimenta masculina, larga, injusta. O homem viera atrás apenas com alguns papéis, notas, documentos. E para ela, a carga! Por que não estava invertido? Pergunta que martelou meus instintos pela vida afora.

E por que ressuscitei dos recantos neurais da memória infantil essas cenas perdidas?

Na pequena Quatro Barras, encostada em Curitiba, esperei o entregador de gás. Um descuido no reabastecimento, imperdoável. Chegou o caminhão e na escuridão entremeada de pequenas réstias de luz da casa, alguém desceu da boléia moderna. Colocou pesadas luvas, agarrou dois bujões pesados, um em cada mão. E caminhou até o local de descarga. Não era um homem como se esperava. Era mulher. Vestia calças, mas calças femininas, ajustadas às suas formas delicadas. Os braços se retesavam sob o peso, mas eram braços delicados, músculos alongados. Acompanhei a caminhada. Cabelos curtos, femininos. Olhos sorridentes. Sorriso liberto, faceiro, um pouco desconcertado. Explicou a situação da emergência sem auxiliares, mas não havia amargura, havia energia, até alegria. Conversamos. Mostrei minha admiração, ao tempo que externei meu constrangimento. Pensei na mulher que desceu do pedestal, deixou o cargo de rainha ou deusa. Veio à terra. Deu lições aos machos pretensiosos, ocupou os espaços, silenciosa, doce, mas firme, decidida, corajosa, vitoriosa. Hoje, faz tudo o que nós, pobres mortais masculinos e quase descartáveis, fazemos. E fazem melhor, com mais amor, com mais eficiência, com humildade mágica; a magia que trouxeram do pedestal que abdicaram sem deixar de repetir todos os dias o milagre de carregar no ventre as frágeis vidas de todos nós.


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