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   > Finalmente, a verdade!



Airo Zamoner
      CRôNICAS

Finalmente, a verdade!

Nada me desperta mais a atenção que a expressão de seu rosto. Olhos pequenos, escuros, escondidos atrás de sobrancelhas grisalhas de onde salta um brilho ofuscante. Olhos ligeiros, matreiros, espertos a contrastar com a velhice que o ronda, que o paquera, que joga alhures seu charme traidor. O sorriso dele, não é coisa facilmente identificável. É um ligeiro esgar maroto, quase sarcástico, às vezes para o lado direito, outras para o esquerdo. É algo forte que agride meu cérebro.
Algumas vezes cruzo com ele pela Rua das Flores da minha Curitiba encantada. Em outras, estamos lado a lado, lendo a mesma notícia no jornal pregado na banca.
No frio, sempre usa um surrado capote desbotado. No calor, o mesmo paletó xadrez de mangas puídas. Claudicante, corpo encurvado, forçando o olhar para o chão se contrapondo com uma vontade altiva que ergue o olhar para o horizonte humano.
Sentir esse duelo, olhar e sorriso, tal e qual exímio espadachim, atuando em conjunto, causa um desconforto imenso. Gera uma vontade intempestiva de virar a cara e ver outras coisas pela rua nossa de cada dia. Ver a juventude sem compromissos, consumindo coca-cola. Ou admirar os cartazes de candidatos de nossa democracia, sorrindo falso, mais uma vez, em suas fotos retocadas, ou sentir as mulheres de nossa terra, rebolativas e graciosas sobre a arte do petit-pavet antigo, reformado. Mas não funciona! Existe alguma coisa muito importante nesta criatura que atrai de volta o olhar, na busca de se desvendar o mistério que ronda por dentro da cabeça enfiada no sobretudo desbotado. E lá estou eu novamente a vê-lo desfilar, corpo, dos pés à barriga, formando um zigue, e da barriga à cabeça, formando um zague.
E eu sem coragem de abordá-lo de uma vez, saber de sua vida. Afinal, por que ele ri? Por que olha daquele jeito indescritível para tudo e para todos? Por que parece ridicularizar a todos e a tudo? Pensei que hoje teria essa coragem. Mesmo porque não sei que necessidade é essa de coragem. Coragem para abordar um aspirante a velho que vagueia como tantos outros pelas calçadas da civilização contraditória de todos os dias? Essa é muito boa! Mas faz sentido, sim. Chegando-se bem perto dele e sendo agredido pela dupla, sorriso e olhar, você compreenderia o que digo. Ele desencoraja qualquer argumento de conversa, desembainhando seu florete pontudo. E a gente finge estar indo para outro lugar, quebrando o vetor da caminhada, como um tolo, um imbecil, um calouro do mundo.
Há quantos anos eu o encontro, não consigo calcular. Sei que também acabei sendo vítima e seduzido pela velhice namoradeira e ele continua por aí do mesmo modo. Resistindo sempre ao assédio macabro, afastando todos os perigos com a expressão explosiva de seu rosto misterioso. E porque o meu tempo também andou passando, não preciso mais travar conversa alguma com ele.
Agora, por exemplo: estou aqui diante da banca de revistas e ele a meu lado, lendo os jornais que falam as mesmas coisas sobre nossas vidas. Notícias cercadas de fotografias de caras sorridentes, aparentemente humilhadas em pedir nosso apoio para que eles consigam seus objetivos eleitoreiros ou financeiros ou econômicos ou sei lá mais o quê, com a condição velada, ou nem tanto, de que não consigamos os nossos. Então eu ganho coragem e de soslaio arrisco investigar para qual notícia ele se dirige. Ele faz o mesmo e nossos olhares se encontram. Nossos olhos soltam rajadas brilhantes pelos arredores. Minha boca faz um esgar para a direita depois para a esquerda. Ele faz a mesma coisa, primeiro para a esquerda depois para a direita. Silenciosos nos afastamos um do outro. Eu arrumo minha manga esfiapada e enterro minha cabeça no boné antigo. Ajeito o ziguezague de meu corpo e enquanto ele desaparece ao sul, eu vou sumindo para o norte, feliz por saber finalmente toda a verdade...


Airo Zamoner é autor do livro “Bichos do Poder”

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