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   > O Honório, quem diria?



Airo Zamoner
      CONTOS

O Honório, quem diria?

Que ele tinha um segredo, ninguém podia negar.
Segui-lo em noites escuras pelos caminhos do bairro não surtia efeito algum. Quantas vezes o seguidor acabava exatamente no mesmo lugar. Depois de uma ou duas horas, já pela madrugada, saía novamente, dava uma volta rápida e retornava para casa. Conjeturava-se que ele, ladino como poucos, desconfiava da vigilância e enganava a todos.
O segredo não podia ser simplesmente dar uma volta de alguns quarteirões em plena madrugada, absorto, solitário, cabisbaixo e voltar para casa como se nada tivesse ocorrido. Muito pouco para alimentar o falatório estimulante de todos os dias. Era imperativo que algo acachapante perpassasse a vida de Honório. E por que saía duas vezes? E por que trocava de roupa entre uma saída e outra? Certamente, havia um segredo!
Bem casado, filhos na melhor escola, emprego antigo. Público, é claro! Vida regrada, mulher apaixonada. Pois é! Isto... intrigava a todos. E intrigava mais porque Honório era o protótipo supremo da feiúra, considerando-se os padrões modernos. Magro, esquelético, corpo sempre arqueado, forçando um cabisbaixismo insistente. Óculos atartarugados, esparsos fios de cabelos, sempre antenados na captura de um suposto caos invisível dos pensamentos, dando a sua expressão um ar abobalhado. É, ele não era realmente um símbolo sexual.
Na repartição, muito respeitado por sua competência contábil. Mergulhava nos papéis amontoados em babel estapafúrdia e construía, sem parar, relatórios infindáveis e complexos sobre as falcatruas da nação.
A mulher, exuberantemente atraente, cobiçada, linda. A notícia do casamento fez estremecer a história do bairro. Ela sempre fora cortejada por um batalhão de mancebos arretados, mais em busca de um conluio libidinoso rápido que de um casamento promissor. E queriam aquele conluio, mais para se glorificarem perante os pares que para a satisfação de machos frustrados. Ela, na puberdade, exibia sempre um ar de ninfeta, provocadora dos sonhos eróticos da gurizada excitada. Nunca se comprovou que alguém tivesse tido a tal honra. Muitos se vangloriavam, mas eram desmascarados vergonhosamente.
E ela cresceu e se casou! E logo com Honório, aquele magricela feioso, calado, sem graça, esquisito, dando inveja e raiva perene à turma dos mocinhos “sarados”.
Mas, que ele tinha um terrível segredo, ah, isso ele tinha. O que todo mundo vinha notando, é que, com o passar dos anos, ela ficava cada dia mais linda, ele cada dia mais abominavelmente feio. E tinha um segredo!
O detetive chegou com imponência sherloquiana, arrastando uma claque solitária de um garoto com ares watsonianos. Baixou por lá em plena madrugada, prometendo desvendar a história. A coleta feita com facilidade fez sobrar recursos. Queriam hospedá-los no melhor hotel. Ele se recusou. Quis a mata próxima e que o deixassem em paz. Em poucos dias traria o resultado. Não trouxe. Honório desconfiou dos movimentos, ladino que era. Despistou o detetive por noites a fio até que desistisse. Ele desistiu também. Nunca mais saiu à noite. A mulher estranhou a brusca interrupção do indispensável “serão”. A rotina mudou e o divórcio foi inevitável. Motivo: a depressão da esposa, que não podia viver sem aquele amante das madrugadas tão parecido com o marido, mas tão arrebatador na cama.


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