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   > Ignácio, Vana e a associação de danças de salão



Maristela Zamoner
      CRôNICAS

Ignácio, Vana e a associação de danças de salão

Ignácio Gerson, é um homem carismático, sempre foi. Pouco instruído, dado aos hábitos etílicos, movia multidões ao dançar. Presidia uma associaçãozinha sub-urbana de ensino de dança de salão, com as contas desequilibradas, esbanjava dinheiro dos associados para rodar o mundo dançando. Não ganhava prêmios, mas, aproveitava as festas. Ninguém sabe de uma parceira realmente efetiva ao longo de sua vida de dançarino, sabia-se apenas que sempre se dizia traído em suas relações, mesmo quando isto não fazia sentido. Mas, em 2003 tomou a iniciativa de colocar Vana para cuidar dos problemas com cortes de luz da associação, por falta de pagamento. Muitas vezes os associados acabavam sem aulas por falta de luz, mesmo com as taxas em dia. O cavalheiro que cuidava deste assunto antes, estava trazendo muitos problemas para Ignácio, de todo tipo. Vana era uma destas praticantes de dança de salão burguesas, que sempre tiveram vida boa e gostavam de criticar tudo com violência. Esta boa vida não a impediu de meter-se com dançarinos de um morro, até participou de alguns assaltos e seqüestros com eles.

Casou-se uma vez, já havia parido e muitos achavam que não gostava de homens, no sentido bíblico. Outros, diziam que tinha uma doença. Era canhota, um o tipo que, sabendo não ser verdade, silenciava quando falavam que tinha estudado na Unicamp, feito mestrado e doutorado, ela gostava de ouvir, se sentia importante. Ignácio nem ligava para estas coisas desimportantes. Aparentemente, ela saiu-se bem com ele. Até dançavam bem juntos e em 2005 ela já lhe prestava serviços de apoio, além de ser sempre uma parceira obediente a cada dança.

Em 2010 começaram a competir juntos. O primeiro campeonato da dupla foi no próprio país, com várias etapas em diferentes estados, medido em aplausos e votos. Prepararam-se durante meses. Vana até fez algumas plásticas e corrigiu os dentes. Era feia, masculinizada, tinha os dentes tortos, não pegaria bem em um concurso de danças de salão, que exige feminilidade. Contrataram um estilista que arrumou os figurinos, ficaram bem apresentáveis. Procuraram os melhores coreógrafos e treinaram tanto que nem pareciam eles mesmos. Mas, por mais que treinassem, não eram nem de longe os melhores. Entretanto, Ignácio nunca foi lá um cavalheiro no melhor sentido, mas, conquistava as multidões com sua simplicidade e foram se equilibrando. Em Curitiba perderam, em Florianópolis perderam, em Belo Horizonte ganharam, no Rio de Janeiro ganharam, Porto Alegre ganharam, sempre no limite continuavam suando a cada dança.

Chegou o último dia, era salsa cubana, a especialidade da dupla. Tinham ficado muito tempo em Cuba, tiveram aulas com os melhores e sabiam bem como proceder a cada movimento. Apesar de tudo, a execução dos passos não foi das melhores, ocorreram alguns escorregões, Vana tinha uma agressividade que precisava ser contida embora respondesse muito bem à condução de Ignácio, que estava literalmente segurando o campeonato na manha. Com o jeitão dele, sempre ajudando os associados com auxílios para suas famílias, conquistou muitas pessoas. Ganharam o campeonato e tinha gente que não conseguia entender como. Foi espetacular. Os associados vibraram, tinham esperança que aquilo trouxesse outras vantagens.

Ambos continuaram deslumbrados com a vitória. Foi uma festa enorme, com o dinheiro do prêmio e mais um tanto da associação marcaram viagens e mais danças. Quando chegou o momento de trocar o comando da associação, Ignácio passou tudo para Vana continuar o que ele fazia.
Mas, a vitória e o comando da associação mexeram com Vana, depois de pouco tempo ela começou a querer conduzir Ignácio na dança e a parceria teve o início do enfraquecimento. Agressiva, queria comandar de toda forma, eliminava quem não concordasse com o que ela queria fazer, trocou de parceiro. Ignácio, disse que não sabia como isto podia acontecer, que fora traído. Vana assumiu tudo, aumentou as taxas, contratou Eunice, uma amiga de longa data, para ajudar, recriou contribuições obrigatórias antigas, mudou o estatuto, começou a impedir que os associados participassem das decisões. Foram tempos diferentes, muitos procuraram outras associações e o dinheiro de Vana começou a diminuir. Mesmo assim, ela não deixava de ir para Cuba, fazer seus cursos de aprimoramento em salsa e Roda de Cassino. Talvez ela pensasse em ir para lá definitivamente se perdesse tudo.

Apesar do álcool, do cigarro e outros hábitos ruins, Ignácio ficou bem, a associação lhe garantiu pelo menos um salário razoável vitalício, hoje, procura nova parceira para voltar a dançar.
 
05 de janeiro de 2011
 
 



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