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   > SANSÃO



Luiz C. Lessa Alves
      CONTOS

SANSÃO

            SANSÃO
 
            Era agosto, sexta-feira, lembro-me bem. Chovia demasiadamente. Disso, também, jamais vou esquecer.
A noite bradava. Vento rugia. Estrelas ocultaram-se. Açoitando-me, o frio sorria. Esgotado, deitei na calçada mais próxima, encostado a um portão de garagem batendo queixo. Minha tremedeira despertou o proprietário, que logo veio saber quem sacudia seu portão. Vendo-me ali, só e debilitado, apiedou-se, convidando-me a entrar. Quase não tive forças para me erguer. Sua esposa, que o seguira, aconselhou desconfiada:
- Bem, cuidado! Nunca o vimos por essas bandas...
- É uma criança ainda! E está tão frágil!...
- Mas é bom ter cautela; nunca se sabe!
- Coitado! Mal pode andar!
            E eu quieto. Fustigado pela fome, flagelado pelo frio, só pensava em duas coisas: comida e agasalho.
            - Amor, ele deve está com muita fome, além do frio notório.
            - Tem sobra do jantar. Vou trazer pra ele.
- Antes, traga-me uma toalha para enxugá-lo... Venha cá, meu rapaz!
Eu me acheguei timidamente.
- Está aqui a toalha, bem. Deixei a comida aquecendo, vou buscar.
Devorei tudo em poucos minutos. Nunca tinha comido algo tão gostoso e quentinho.
- Estava mesmo faminto! Parou até de tremer! Será que fugiu de casa?
- Amanhã saberemos. Agora tenho que arrumar um lugar onde ele passar a noite.
- Bem, não o conhecemos... Ponha-o na varanda! Acho que lá ele ficará bem.
- Garoto, você vai dormir ali. Vou providenciar...
- Ponha este papelão, forre com edredom e cubra-o. É velho, mas...
- Venha cá, meu menino! Deite aqui e boa noite. Não saia amanhã sem um alô!
“Como posso deixar casa onde saciam minha fome, me aquecem em noite siberiana? Não posso decepcioná-los, partindo sem um adeus! Quem sabe, poderei ganhar ainda café da manhã, antes de partir. E até com pouco mais de sorte eles simpatizarão comigo, nem me deixarão ir embora! Como dizia minha mãe: ‘Quem não tem dinheiro, parente nem aderente, só navega ao vento’.” Assim, sonhando adormeci, vencido pela exaustão.
Pela manhã, bem cedo, escutei passos morrendo no portão. Imediatamente cuidei de fazê-lo entender que eu estava ali, caso quisesse entrar às escondidas. Veio, então, o chamado:
- Edvaldo!
Este respondeu e foi atender.
- Oi, Everaldo. Entre um pouco. Ainda é cedo. Estou quase pronto.
Eles conversavam, enquanto tomavam café. E eu observava de longe, no meu canto sossegado.
- Adotou? Desde quando?
- Apareceu ontem à noite debaixo daquele temporal.
- Tá um pouco caidinho, mas, aos seus cuidados... Vai adotar?
- Até gostaria, mas, casa pequena... Também não sei se fugiu de alguma outra.
- Não creio. Tímido assim, parece procurar uma família! Brás vai adorar!
- Vou deixá-lo à vontade; se ele quiser ir, tudo bem.
- Seis e meia, vamos?
- Vamos.
Escutei tudo, calado. Certamente ignoravam minha ótima audição, ou nem ligavam para meu parecer.
Àquele encontro fiquei sabendo que o homem bondoso se chamava Edvaldo. Eles faziam isso todas as manhãs de sábado, domingo e feriado.
Voltei a dormir. Lá pelas oito, pressenti passos vindo em minha direção. Imaginando quem seria, fiz cara triste para impressionar.
- Olá! E aí, dormiu bem? Vem cá! Que carinha triste é essa? Você fugiu de casa, foi?
Sorri de cabeça baixa para agradar e mostrar-lhe minha total submissão. Gostei das carícias, entretanto, continuei sem nada falar.
- Você deve ter um nome, uma casa, uma família... Você tem uma, não tem?
Essas palavras amordaçaram-me o sorriso. Vendo-me cabisbaixo, ela pôs mão esquerda sob meu queixo, levantando meu rosto; com a direita afagava minha cabeça.
- Ah! Ficou tristinho! Deve estar com fome. Vou preparar alguma coisa pra você.
Não era fome o porquê da minha tristeza, e sim falta de procedência: uma família. Ela saiu, retornando alguns minutos depois. 
- Coma isto por enquanto. Edvaldo vai trazer algo melhor, quando voltar da bola.
Enquanto comia, sem acanhamento, eu me perguntava: “Existe mesmo alguma comida melhor do que aquele arroz com carne de ontem à noite, e este pão ao leite quentinho?”. Fiquei a duvidar.
- Brás ficará muito contente quando acordar e souber que tem um amiguinho em casa.
Dizendo isso ela se afastou. Deitei novamente tranquilo. Ainda estava bastante enfadado. Todavia, feliz, sem dúvidas.
Moleque ressuscitou quase onze horas. Tomando conhecimento da minha presença, mal beliscou; grudou em mim até a mãe chamá-lo para almoçar. O abusado nem mastigou: engoliu, retornando imediatamente. Embora eu continuasse tedioso, adorei! Só lembrava em ter brincado daquele jeito com meu irmão gêmeo... – E você, Neguinho, por aonde andará? - Quanta saudade!
Bem, eu estava certo: homem caridoso não foi tão bom ao escolher minhas refeições. Chegou com um saco cheio de biscoitinhos secos, duros, sem paladar algum: horrível!
- Sansão, vem comigo! Agora vamos soltar pipa, venha!
Eu fiquei olhando em volta, procurando o tal Sansão, quando ele gritou:
- Tá olhando o quê? É você mesmo! Seu nome agora é Sansão! Vamos!
O folgado nem procurou saber, quem eu era! Foi logo me apelidando! Mas, por que eu haveria de me incomodar? Afinal, tinha sido chamado de tantos outros apelidos bem mais feios! “Mas por que Sansão?” Estava pensando quando...
- Sansão foi um gigante muito forte! Como você é fracote, vai ter esse nome para intimidar os outros, sacou?
Senti que o pirralho não estava levando fé em mim. Eu precisava fazer algo urgente para impressioná-lo, a fim de ratificar e sacramentar minha permanência naquela casa. Tinha certeza que a opinião dele valia mais que a dos coroas. Estes eu já havia conquistado. No entanto, por compaixão, não mérito.
Necessitava, portanto, mostrar alguma qualidade. Imaginei encontrar alguém do meu tope e meter cacete! Porque isso eu aprendi muito bem nas ruas. Mas, para tanto, eu precisava ser provocado. Nunca tinha brigado sem motivo. 
Edvaldo chegara cansado; comeu, foi dormir. 
Fui com Brás, finalmente, contrariando a mãe, que insistira sem êxito para ele me deixar em casa.
- Brás, ele está cansado! Tadinho! É novo por essas bandas... Pode até se perder!
Eu me perder! Via-se, logo, que ela não me conhecia bem!
Já no final da tarde, Brás sai correndo atrás de uma pipa voada, e eu, fiel escudeiro, segui seus passose. Antes de ela cair, o moleque aparou. Com igual propósito outros meninos vinham. Dentre eles, Didi, grande, troncudo, tido como valente, dizendo-se dono.     
- Pipa voada não tem dono.
- Mas essa tem! É minha e pronto! Passa pra cá!
O valentão terminou frase partindo para cima do meu parceiro. Vi, naquele exato momento, chance de mostrar aquilo que tinha aprendido nos becos da vida e, provavelmente, selar minha permanência naquele doce lar. Estacionei imediatamente entre ambos. Cara feia! Tom ameaçador! Decidido, como deve ser alguém feito eu: sozinho, pretendendo conquistar seu espaço e continuar saudável. Olhando Didi nos olhos, rangendo dentes, dizendo-lhe que ele iria se ferir, caso se metesse com meu companheiro. O valentãoão não duvidou: fugiu correndo! Fiquei parado observando, até meu amigo me abraçar forte, enquanto outros meninos também me aplaudiam, querendo saber quem era este pequeno, e destemido desconhecido.
- É Sansão! Ele não foi demais? Vamos pra casa! Papai e mamãe vão adorar saber!
A caminho de casa ouvia:
- Ele merece o nome que tem.
- Cara, tem que ter muita coragem pra encará o Didi!
- Bem feito, nunca mais ele vai curtir com nossa cara!
Naquele exato momento senti que euhavia conquistado não só uma família. Amor ao primeiro dia.
 “Estou adotado! Tenho uma casa, finalmente, isso é que importa!”. Pensando assim chegamos a casa.
À noite, jantando, Brás disse aos pais coisas que me deixaram orgulhoso. Gostei muito, todavia, sem nada opinar. Modéstia é minha maior virtude. “Boca fechada não baba”, conselho de minha mãe. Edvaldo e esposa até dispensaram tempo traçando planos para este pequeno, bravo forasteiro. Final do diálogo, dona Erotildes propõe me presentear.
- Nem pensar, mãe!
- Amor, eu concordo com Brás! Sansão é um garoto ainda para possuir essas coisas!
De delinquente a herói em menos de vinte e quatro horas. Foi ótimo! Não gostei, porém, quando ele disse aos pais que minha bravura devia-se ao nome que ele tinha me dado. Que sacana!
A partir daquela mesma noite passei a dormir no quarto de Brás, após tomar banho, claro! Esta parte, eu odiei. Mas, só nos primeiros dias. Eu não me recordava de ter havido antes, alguma vez, este relacionamento íntimo entre meu corpo e qualquer tipo de água, senão da chuva. Contudo, valeu o sacrifício!
Segunda-feira Edvaldo levou-me ao médico. Outra face odiosa. Só em pensar, sinto aquelas agulhadas. Ainda assim, confesso, espetadas muito aquém das mordomias obtidas.
Cresci sem colar, anel, corrente... Livre de qualquer adorno. Brás, Eduardo nunca me deram. Dona Erotildes acatou tal decisão, alguns dias após minha inclusão à família. 
Cheguei nesta casa, trazido pela necessidade e desespero: pais da criatividade, coragem e também do medo! Abracei dois. Deixei para trás o terceiro. Por isso ganhei carinho, força, respeito...  
Foram-se dias, meses... Hoje meu amigo está com onze anos, continua, entretanto, igual: estuda, joga vídeo game... Faz muitas coisas sem mim. Mas, quando vai jogar bola, marraio, soltar pipa; estou com ele! Sou querido por todos em casa e nas ruas; sem preconceitos.Até Didi, naquele domingo ainda, nos pediu desculpas e hoje faz parte dos nossos bons amigos.
Everaldo... Lembra-se dele? É nosso vizinho! Tem esposa, dona Julita, e duas filhas: Luciana e Vandira. Semanas após minha chegada aqui, ele seguiu exemplo de seu Edvaldo: a pedido das filhas, também tirou das ruas uma linda garotinha; hoje, bela “potranca”! Uma “baita cachorrona”! Em todos os sentidos, sem exagero. Agora, uma vez por ano, seu Everaldo me convida a passar alguns dias em sua casa.
Graças a essas férias eu e Dalila já ganhamos doze herdeiros, em somente três anos. Outros mais virão, pode apostar!
Somos eternamente gratos a Edvaldo, Everaldo, esposas e filhos por haver nos proporcionado uma felicidade jamais imaginada; tornando-nos membros de seus lares.
Seria ótimo se toda família fizessem igual, adotando um dos nossos que vivem abandonados nas ruas, só porque não têm pedigree. 
 

Conto do livro Pequenas Histórias Pedaços de Vidas - Editora Protexto


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