Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (641)  
  Contos (940)  
  Crônicas (724)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (217)  
  Pensamentos (651)  
  Poesias (2528)  
  Resenhas (129)  

 
 
Dança de Salão, a...
Maristela Zamoner
R$ 36,60
(A Vista)



Apenas um Minuto
Lidia Maria Cardia
R$ 34,10
(A Vista)






   > AQUELES DIAS



Luiz C. Lessa Alves
      CONTOS

AQUELES DIAS

AQUELES DIAS
           
Certa noite, quando estávamos todos esperando que algum peixe se interessasse pelas iscas, alguém relembra, com visível saudade, as festas, os bailes, as músicas: Elvis Presley, Beatles, Bread, Genesis, Bee Gees, The Mamas and the Papas, Lobo, Cat Stevens, Trini Lopez; Renato e Seus blue Caps, Golden Boys, The Pop’s, Os Fevers, Trio Melodia, Trio Esperança, Leno e Lilian, Deny e Dino, Os Vips, Erasmo, Roberto, Sergio Reis, Jerry, Demétrius, Eduardo Araújo, Wanderley Cardoso, Antonio Marcos, Ronnie Von, Reginaldo Rossi, Rosemary, Wanderléa, Vanusa, Martinha, Silvinha, Celly Campello, Kátia Cilene, mais ainda, os percussores da Bossa Nova; o Papa João Gilberto, Caetano, Gil, Edu Lobo, Carlos Lira, Geraldo Vandré, Chico, Toquinho, Tom, Vinícius, Jorge Bem, MPB4 e muitas outras estrelas do mundo da música de uma era jamais esquecida: anos 60 e 70!
            Querendo sobrevoar mais ainda por aqueles Anos Dourados, outro pede para cada qual garimpar e exibir uma joia marcante daqueles tempos.
            Então eu lhes confessei que estava fora, por não ser daquela época, nem ter vivido, ainda, o suficiente para arquivar momentos inesquecíveis! Entretanto, poderia citar algum dos muitos, que meu avô havia me confidenciado, caso lhes interessasse...Caíram em gargalhadas!
            - Não estou entendendo esses risos! - reclamei.
            Ignorando tudo aquilo, um deles abaixou a cabeça e disse, sem esconder a melancolia:
            - Ninguém imagina o quanto me faz feliz as noites que passo aqui pescando com vocês.
            Não entendendo aquela confissão com tanto pesar, dissemos a ele que assim, também, nos sentíamos: felicíssimos em estarmos juntos, embora, periodicamente.   
            Aproveitando aquela declaração espontânea, pedimos-lhe para ser o primeiro a apresentar a folha do papiro onde, certamente, ele transcrevera algum pedaço da sua vida. 
            Sem questionar, cabisbaixo, disse que ainda jovem foi ao aniversário do melhor amigo. Festa com muita comida regada a coca cola, cuba libe e limão. Renato e Seus Blue Caps, Os Fevers, The Pop’s, Golden Boys, na vitrola, animavam o baile.
Madrugada, final da festa, ia saindo, quando o aniversariante o chamou, pedindo para ele desembrulhar seus presentes, alegando estar muito cansado. Vendo seu estado de embriaguez, o parceiro ainda o aconselhou deixar para ver aquilo, quando se sentisse mais disposto. Mas, o anfitrião insistiu:
            - Quero ver, agora, o que os otários me trouxeram de presente!
            Disse já deitado na cama.  
            Tarefa cumprido, o aniversariante vira-se para o amigo:
            - A gente investe uma grana e veja: cueca, meia, fita cassete, disco... e compacto ainda! Nenhum de Elvis, Beatles...
            Naquela época era difícil se comprar qualquer produto importado; um disco que fosse! O parceiro tinha levado, com a devida dedicatória na capa, um LP, intitulado “Um Embalo Com Renato e Seus Blue Caps”; recém lançado pelos cinco rapazes, que ele achou prudente não mostrá-lo ao amigo, naquele momento, após ouvir tanta arrogância.
            - E qual foi o seu? Não vai me dizer que me trouxe cueca, também?
            - Infelizmente, hoje, só lhe trouxe no “embalo” um abraço amigo, que vale por cinco!
            - Até você que eu considero meu irmão! Te manda também! Pode ir! Xô!
            Dois dias, depois ele apareceu, dizendo-se envergonhado, pedindo mil desculpas.
            No aniversario seguinte o parceiro disse que chegou bem cedo à casa do amigo, sabendo que ele nem a irmã estavam. Entregou, então, o presente a uma das empregadas.
            No outro dia, bem cedo, a namorada lhe procurou querendo saber por que ele não tinha ido procurá-la, e o que havia no presente, que ele dera ao irmão!       
            - Você não ia entender. Quanto ao presente, nada de mais, além das canções de Elvis, e minha dedicatória na capa! Você deve ter visto!
            - Ele não deixou, sequer, a gente ver! O que você escreveu?
            - “Muito me custou encontrar um presente capaz de substituir minha presença na festa de aniversário do meu melhor amigo. Parabéns pelos seus 16 anos!...”. Somente isso!
            - Por que você fez essa dedicatória, e não me avisou que não ia me ver? Eu fiquei que nem uma boba te esperando até...!
            Depois de explicar tudo que acontecera no último aniversário...
            - Eu tinha certeza que você não ia concordar, e ainda ia me convencer a ficar na festa!
            - Mas que festa? Não teve festa!
            - Como não? Ele só falava do aniversário!
            - Depois de desembrulhar o LP, pediu pra a gente avisar aos convidados que não ia haver mais nenhuma festa. E que não aceitasse nenhum presente!
            - Ele só pode ter ficado tantã!
            - Disse que estava com muita dor de cabeça. Só recebeu a namorada! Pegou a vitrola, trancou-se no quarto com ela e Elvis Presley cantando, até... sei lá que horas!
            - Elaine não lhe contou nada, depois?
            - Ainda não estive com ela.
            O companheiro confessou que se arrependeu amargamente por não tê-lo perdoado. Muito pelo amigo, que tantas vezes lhe provou ser o melhor, mais ainda por Denise: garota lindíssima, inteligente, maravilhosa, compreensiva...! Tudo por causa de um orgulho idiota.
            Ele garantiu que a namorada muito lhe rogava para perdoar ao irmão, sem ele dar a mínima às suas suplicas.
            - Mas ele me chamou de otário e me enxotou de sua casa! Amigo verdadeiro jamais faz coisas assim! 
            - Estava bêbado; perdoa meu irmão, vai! Ele vive dizendo para nossos pais que você é o irmão que eles não lhe deram. Eu só não ligo porque sei o quanto me ama. Ele sempre quis ter um Irmão. Você é isto para ele, e eu gosto disso, porque amo você!
            - Mas ele só faz bobagens em festas! Já pedi várias vezes para ele não beber. Muito menos curtir com a cara dos nossos amigos pobres, como eu! Isso me chateia! Mas, ele não aprende!
            Ele só deixou esta mania de riquinho besta, no exército, quando serviu. Mas, logo depois, o pai abriu uma filial de sua empresa em outro estado e eles se mudaram. Ainda assim, Denise e o nosso parceiro ficaram se correspondendo por carta. Mas...
            - Éramos jovens inexperientes: ela rica eu pobre. A distância juntou tudo isso e construiu uma muralha entre mim e Denise. Não sabia como transpô-la. O tempo bem tentou me ajudar: amadureci, mas, continuei pobre e inseguro. Hoje, velho, além de pobre, sinto-me um fraco, porque ainda não consigo esconder dos amigos a saudade dela, se alguém ou alguma coisa me traz daqueles dias.
 


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui