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   > ESTA É UMA REALIDADE INDIGESTA



Nelson Hoffmann
      CRôNICAS

ESTA É UMA REALIDADE INDIGESTA

Encontrei Ronaldo Cagiano, pela primeira vez, num conto. Estava com outros, era uma antologia. Não lembro qual antologia nem recordo qual o conto. Guardo para mim que nele apareceu uma referência a Kafka e por mim cruzou uma pequena luz: Júlio Cortázar?
Isso eu guardei, faz tempo. Aos poucos conheci Ronaldo Cagiano, com ele troquei correspondência, livros e idéias. Até hoje, continuo.
Ronaldo Cagiano é natural de Cataguases, MG, uma terra que tem história na Literatura Brasileira. Se por mais não fora, seria por sua legendária revista “Verde” e os autores que dela participaram. Hoje, Cagiano reside em Brasília, DF, onde cursou Direito, foi Assessor Jurídico na Presidência da República, Assessor de Gabinete no Senado Federal e exerce atividades na Caixa Econômica Federal. Mas, filho de Cataguases e bom filho que é, sempre que pode lá está ele, “revisitando Cataguases” e registrando: Atravesso a cidade// em nostálgico compasso// - liturgia da revisita -.
Articulista, contista, cronista, ensaísta e poeta, foi como poeta que Ronaldo Cagiano chamou a atenção. Dentre outros textos poéticos, é autor dos livros “Palavra Engajada”, “Palavracesa” e “Canção Dentro da Noite”. Este é seu mais recente livro de poesias e está na melhor frente da poesia mineira e brasileira. Dentro da linhagem drummondiana. Com seu lirismo pessoal e sua denúncia social, o poeta atinge o universal.
Despreocupado com a busca de novas formas poéticas, Cagiano desvenda a falta de horizontes da brasileira condição humana. A infância do poeta é passado, foi-se Nas águas do velho rio// que passa pela minha cidade... // Ah, ando à cata de quem sou (ou fui)...// - tudo passou!. A infância da gente de hoje é a história da miséria humana:// são os meninos de rua,// as meninas das esquinas...
Vem a indignação, a revolta do poeta. Estamos na denúncia social, que é dura, candente: Vejo, isto sim,// um saara social,// uma hiroshima urbana;// vejo um vietnã nas favelas,// uma sarajevo nas periferias// e mais do que a miséria// que envergonha,// a carne ardendo de explícitas// dores quotidianas// prega a homilia das injustiças// num ofertório de desesperos.
Precisa mais?
É a noite. Ao poeta cabe a canção: A canção,// a simples canção,// é uma luz dentro da noite, na epígrafe de Mário Quintana. É a “Canção Dentro da Noite” desse bom mineiro que é Ronaldo Cagiano.
Os artigos de Ronaldo Cagiano estão enfeixados, em parte, no volume “Prismas – Literatura e Outros Temas”. Em linguagem simples, objetiva e clara, qualquer tema é sempre tema para o articulista abordar e desenvolver. Com segurança, mas de seu enfoque pessoal. Observe-se isso, que o autor nunca deixa de ser o filho de Cataguases nem descuida de outros assuntos que brotam do interior deste nosso Brasil. Em especial, assuntos de Literatura, que Literatura é a vida de Ronaldo Cagiano.
Tanto isso é verdade que, em nossas correspondências, dele eu li um sem-número de vezes: “Tudo o que está fora da Literatura me aborrece”. A frase seria de Kafka, informou-me.
O fato é que Ronaldo Cagiano vive em função da Literatura e tem na Literatura o veículo da expressão de sua visão de mundo e de sua interação com esse mesmo mundo. Mundo que, por sinal, deixa a desejar.
Isto se torna meridiano em seu último livro, “Dezembro Indigesto”. Este é um livro de contos e nasceu premiado, premiado que foi pela “Bolsa Brasília de Produção Literária 2001”, da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal.
Os contos de “Dezembro Indigesto” mostram um escritor seguro do seu ofício, com rumo definido. A linha básica do pensamento e do enfoque do poeta e articulista permanecem. No todo, continuam os traços que lembram as origens e vinculam à terra, salientam-se os detalhes claros e objetivos e fortalece-se a denúncia social. Sobretudo, escancara-se a revolta diante de uma realidade que escamoteia a realização do homem como ser humano. Tudo isso mostra a contínua evolução desse autor mineiro e confirma uma trajetória consciente em busca da realização.
Da leitura dos contos de Cagiano, vislumbram-se influências. Kafka é uma das mais salientes. Há outras, políticas, sociais, filosóficas: Camus, Sartre, Lispector... Cortázar? A ação inexiste em alguns relatos. Por vezes, dilui-se a divisa entre ficção e realidade. De qualquer forma, esta é sempre uma realidade indigesta.

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