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   > OS OLHOS DO PE. ROQUE



Nelson Hoffmann
      CRôNICAS

OS OLHOS DO PE. ROQUE

Há pouco, quando redigia “A Chegada do Pe. Roque”, revisitei “A República ‘Comunista’ Cristã dos Guaranis”, de Clóvis Lugon. Dessa releitura ficou-me na memória, pipocando, uma frase: O Padre Gonzalez aceitara essas ofertas com candura. Na passagem, o autor referia-se à tranqüila aceitação com que o Pe. Roque Gonzales de Santa Cruz aceitava donativos de gente abastada e à inocência com que recebia a colocação de autoridades espanholas nas reduções. Pelo jeito, não tinha a mínima desconfiança da malícia humana e sua ganância.
Há muito, desde que me debruço sobre a figura do Pe. Roque Gonzales, um detalhe me intriga: como conseguiu esse Padre desafiar tantos perigos e superá-los todos? Por tantos anos, em tantas frentes?
É preciso lembrar que o Pe. Roque Gonzales de Santa Cruz nasceu em 1576, na cidade de Assunção, Paraguai. Ordenou-se sacerdote em 1599 e começou suas atividades missionárias junto aos indígenas. Nos lugares mais recônditos, junto aos silvícolas mais bravios. Começou pela região de Maracaju, Paraguai, e voltou glorificado pelo sucesso. Foi designado para o Chaco, onde imperavam os nômades e insociáveis guaicurus, e voltou como quem ressuscita, superando a morte considerada certa. Seguiu para Santo Inácio Guaçu e botou ordem onde ninguém conseguia. Desceu para o Sul, apaziguou índios, fundou reduções, floresceu em obras. Atravessou o rio Uruguai, adentrou o solo gaúcho, pisou na terra de Nheçu. E encontrou a morte na localidade de Caaró, em 15 de novembro de 1628.
Isto são trinta anos de atividade apostólica ininterrupta. Apenas vestido com sua batina preta, portando a imagem de Nossa Senhora Conquistadora e ostentando a Cruz de Cristo. Em meio à gente nunca vista, em terras nunca palmilhadas por homem branco. As dificuldades em crescendo contínuo, o perigo rondando sempre. Sempre em situações de extrema tensão, a morte espreitando, pronta para o bote. Que aconteceu, num descuido.
Teria acontecido num descuido. Quem conta é o Pe. Luís Gonzaga Jaeger, S. J., em seu livro “Os Heróis do Caaró e Pirapó”. O Pe. Roque Gonzales já tinha fundado a Redução de Todos os Santos, em Caaró, e preparava-se para erguer o campanário. Após a missa da manhã do dia 15.11.1628, decidiu realizar a tarefa. Conforme o Pe. Jaeger:
Nisso se inclina o servo de Deus para atar o badalo ao sino com uma corda. Foi o momento ansiosamente espreitado pelos assassinos. Ainda antes que Roque tivesse tempo de levantar aqueles seus grandes olhos, que tanta vez haviam subjugado a audácia indígena... E segue a narração dos golpes desferidos pelos emissários de Nheçu, liquidando o Pe. Roque Gonzales de Santa Cruz.
O descuido: ... se inclina o servo de Deus... A resposta para a minha questão, o segredo para a superação de tantos desafios: ... aqueles seus grandes olhos, que tanta vez haviam subjugado a audácia indígena....
A notícia da morte do Pe. Roque é levada à Redução de Candelária, onde reside o Pe. Romero. Este custa a entender o acontecido e, quando entende, só quis saber se os assassinos tinham falado antes com o padre, e se lhe haviam visto o rosto e os olhos, - porque, nesse caso, não cria na possibilidade de eles terem ousado atacá-lo, constando-lhe que a força avassaladora das palavras e o brilho irresistível dos olhos do seu santo superior costumavam subjugar até os bárbaros mais ferozes.
Sem dúvida, parece, a resposta que eu procuro está nos olhos do Pe. Roque:
- Aqueles seus grandes olhos... O brilho irresistível dos olhos...
Mas, donde vinha esse irresistível dos olhos? Por que esses olhos eram grandes olhos, no sentido de poderosos?
Não podiam ser qualidades inerentes aos olhos. Para subjugar até os bárbaros mais ferozes, era preciso que algo houvesse além dos olhos.
Os olhos, aqui, é tropo, metonímia, expressa o olhar do Pe. Roque. O olhar pressupõe algo além dos olhos. Por trás dos olhos, o olhar do Pe. Roque revelava uma força interior. Anterior, superior.
Que força?
Para o Pe. Luís Gonzaga Jaeger, S. J., causídico da beatificação e canonização dos Três Mártires das Missões, era a força divina que, pelos olhos do Pe. Roque, comparecia na evangelização dos idólatras. Seria a fala de Deus quebrando hostilidades, dobrando mentes. Em prol do rebanho celeste.
Talvez seja, não discuto. Nem me alço a interpretações, apenas faço perguntas. E sou muito sincero, confesso: a minha fé é mais rasteira, permanece no cotidiano da vida. Gosto do ser humano como ele é, com seus defeitos e virtudes.
Qual a virtude do Pe. Roque? Qual a força interior que o fazia subjugar até os bárbaros mais ferozes com o brilho irresistível dos seus olhos?
Ainda não sei e gostaria de saber. Continuo perguntando. Mas, a todo momento, de permeio, salta-me da memória a frase de Clóvis Lugon. E eu começo a relacionar e começo a questionar:
- A candura do Pe. Roque?... Não estaria na candura do Pe. Roque a grande força de seus olhos?
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e-mail: n.hoffmann@via-rs.net



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