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   > Latas de menino



Maurício Cintrão
      CRôNICAS

Latas de menino

Nos meus tempos de menino, chutávamos latas. Mas as latas eram outras naquela época. O óleo era Maria e a propaganda vivia dizendo: Maria, sai da lata! Latas de óleo, de azeite, ou de manteiga. Talvez você não saiba, mas comia-se pão com manteiga de lata, Aviação. Lata era medida para grãos. Uma lata de feijão dava comida para a toda a semana. Até sorvete era vendido em lata. E uma lata de sorvete custava um dinheirão.

Tinha lata de banha, lata de cola e lata de sabão. Todos os restinhos da casa iam parar na lata de sabão. Desperdiçava-se pouco nos meus tempos de menino. Daí a grande utilidade das latas. Os biscoitos vinham em lata. Havia a Duchen e sua lata quadrada, os clássicos Biscoutos Jacareí, na lata retangular. E tantas outras latas que duravam muito tempo e adquiriam várias utilidades. Vem daí a lata de pregos, porcas e parafusos que hoje se guardam em potes de vidro. A lata de torradas também era muito comum. O pão amanhecido ia para o forno e ficava na lata para a sopa da noite. Era costume tomar sopa à noite, então. Até os filmes, olhe que incrível, eram guardados em latas.

Quando menino, os carrinhos de brinquedo eram feitos de lata. O velocípede, o cofrinho para as moedas e a lancheira da escola eram todos de lata. Os carrinhos de rolimã eram feitos de madeira mas tinham lata nos eixos para reforçar. E o telefone sem fio tinha que ter lata nas extremidades do barbante, o fio do telefone sem fio. Falávamos pelas mesmas latinhas que usávamos para transportar as minhocas nas pescarias.

Engraçado lembrar que meu herói de coração mole era o Homem de Lata, de O Mágico de Oz. Havia a turma do Manda-Chuva que morava no lixo, em latas. Mais tarde, o Peninha, primo do Pato Donald, usava uma lata de lixo para se transformar no Morcego Vermelho. Incrível, pois, naquele tempo ainda existia lata de lixo. Se fossem apelidados hoje, os cachorros de rua seriam chamados de rasga-sacos e não vira-latas.

Nas fábricas, príncipes, barões e baianas das escolas de samba comiam à paisana nas marmitas de lata. "Lata d'água na cabeça, lá vai Maria", cantavam à sobremesa. Quando faltava zinco, o barracão dos sambas da época era coberto com lata. Como era de lata a coroa do Rei Momo. Germano Mathias batucava seu samba na lata de engraxar sapatos. Tempos depois, a cerveja em lata virou chocalho. Mas isso foi muito tempo depois.

Tenho saudades das latas de chutar. Mas os anos se passaram e não há mais latas como antigamente. Nem eu sou menino, para chutar distraído os pensamentos pela calçada.


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